Sob as ruínas mouras, ao topo da mais alta colina que se debruça sobre o fértil vale do Rio Nabão, - Tomar, na Idade Média - , estende-se um cinturão de muralhas do século XII.
Tomar nasce com o espaço fortificado, a partir da doação do Castelo de Ceras e seu termo aos Templários, por D. Afonso Henriques em 1159. Obra inédita em Portugal, foi inspirada possivelmente em estruturas semelhantes do Oriente Médio, como a Torre de Menagem e o alambor, este, um talude de reforço em forma de rampa na base da muralha para manter à distância máquinas de assalto. A muralha original incluía a Alcáçova, reservada às dependências dos Cavaleiros Templários, a Almedina onde se implantava o burgo, e o oratório dos montes soldados. Este, além de ser um dos melhores entre os raros exemplares existentes de igreja em rotunda, é o símbolo das guerras santas que marcaram a Idade Média.
A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ou simplesmente, Cavaleiros Templários, foi fundada em 1118 após a Primeira Cruzada sob as bençãos do Papa
Nos estertores do período feudal, contexto em que o cristianismo buscava consolidar-se enquanto poder supra-estatal. Ainda pretendia, naquela Europa ameaçada pelo domínio mouro, contra-atacar o islã no Oriente Médio. Mas se em princípio o voto anunciado era de pobreza, de castidade e de obediência, a realidade final da ordem foi bem diferente.
Pelos dois séculos que se seguiram à sua fundação, a Ordem dos Templários cresceu em combatentes e em poder: integravam-na as mais qualificadas, violentas e impiedosas unidades das Cruzadas. Os resultados obtidos nos campos da “guerra santa”, logo levou os templários a outros âmbitos de atuação eclesiais: dedicaram-se desenvolver técnicas financeiras implantadas em uma ampla infraestrutura econômica, o embrião daquele que seria o futuro sistema bancário, movido ao lucro, apesar da condenação à “usura”, quando esta provinha da burguesia judia.
Os templários ergueram fortificações por toda a Europa e Terra Santa e perseguiram sem trégua os mouros daquele continente.
Contudo, não partiu do Alcorão a sua ruína. Foi nutrida no seio de sua própria religião, tramada por seus devedores – que se tornam adversários, e se multiplicaram na proporção em que a ordem acumulou poder. Aliado do Papa Clemente V, Felipe o Belo, rei da França, encetou a cruzada contra os templários a partir das duas primeiras décadas dos anos 1300, com o confisco de sua fortuna e execução de grão-mestres: foi a vez do fortalecimento da Igreja e do Estado da França.
Em toda da Europa, o embate entre Criador e Criatura, os interesses das cortes emergentes e de suas burguesias nacionais, além das disputas daí decorrentes no seio da própria Igreja, destroçam os Cavaleiros Templários. Mas em Portugal, o desfecho foi distinto: uma manobra de Dinis I (1279-1325) junto ao sucessor de Clemente V, Papa João XXII, obteve êxito na expedição da bula “Ad ae exquibus (1319), constituindo a “nova” milícia santa: a Ordem de Cristo. Esta viria a herdar todos os bens dos templários. Os “novos” combatentes de Cristo sediaram-se a partir de 1334 em Tomar, testemunha viva de que, como nos ensinam os sábios: em vida, quase tudo passa.
Dirigidos por Henrique o Navegador, que se tornou o grão-mestre a partir de 1.420, estes cavaleiros integraram a aventura marítima de Portugal, lançando ao mar um novo tipo de embarcação, a caravela. O mosteiro viria a se beneficiar das riquezas pilhadas no ultramar e não à toa traz, em belíssima decoração, todos os símbolos dos descobrimentos: as cordas, a cruz da Ordem de Cristo e a esfera armilar, um instrumento de navegação.


Texto: Bertha Maakaroun
Imagens: Concierge
Fonte: Wikimedia Commons