Shanghai

Para se ter uma ideia da importância econômica e do espetacular crescimento da China, basta visitar Shanghai e se postar de costas para o Bund, lado da velha China colonial do seculo XIX. Você estará de frente para a margem oposta do rio Huangpu, o Pudong. Todas as edificações ali existentes foram construídas depois de 1990. Antes era um distrito rural e pobre da cidade. Ali estão as torres mais altas do mundo, símbolo de pujança econômica e tecnologia.
Shanghai China

Texto: Bertha Maakaroun, Eugênio Gomes e Marina Sanchez.
Fotos: Bertha Maakaroun.

China, o futuro já faz parte do passado

Aprisionado em Elba em 1816, Napoleão retrucou ao ouvir do Lorde Amherst que a Inglaterra havia fracassado na segunda tentativa de estabelecer relações comerciais com a China: “Deixem-na dormir, porque quando acordar o mundo tremerá.”

À medida em que o barco avança e sobe o rio, à direita, mira-se o futuro. Duas skylines se confrontam. Na margem oriental do rio Huangpu, denominada Pudong, a China pós-colonial exibe a sua pujança e força. É um dos pontos altos de Shanghai, a mais ocidentalizada e cosmopolita cidade chinesa. Com 632 metros, a Shanghai Tower desafia a concorrência arrojada com o título de segunda mais alta do planeta. O Shanghai World Financial Center, do alto de seus 492 metros e 101 andares, é considerado o maior com espaço vazado ao topo. Empilhando 153 andares e quase meio quilômetro de altura a Oriental Pearl Tower exibe 470 metros de altura em formato exótico. Na margem oposta, o encanto da arquitetura colonial intocada do passado. Ali estão prédios como o da Alfândega e o Big-Beng tal e qual, o Hon Kong & Shanghai Bank, o Peace Hotel todas edificações emblemáticas da primeira metade do século 20.

A comparação entre as duas ” skylines” é inevitável e remete às opções históricas de um povo em momentos diversos. Shanghai hoje é a segunda maior da China, com quase 25 milhões de habitantes, ainda que para os ocidentais, seja vendida como a primeira. O Império Celestial ou País do Centro, que é como os chineses se chamavam e se reconhecem, está de volta. A China, nome pela qual a conhecemos, também. Tais visões, que evidenciam coisas distintas, dialogam ou conflitam, a partir de Shanghai. 

Shanghai significa “acima do mar”. Mas em mandarim clássico, quer dizer “sequestro”. Explica-se. Ao longo do século 19, mais intensamente nas primeiras décadas, era frequente o desaparecimento de jovens chineses. Entorpecidos, acordavam a bordo de barcos. Destinos variados, principalmente para as Américas, o trabalho invariavelmente era escravo. Nos Estados Unidos ajudaram a construir a Ferrovia Transcontinental; a Oeste do Canadá, a Ferrovia Canadense do Pacífico; no Peru eram mandados às minas de prata; também serviam nas plantações de açúcar de Cuba e outras ilhas das Índias Ocidentais. 

A história de Shanghai é a síntese da relação da China com países colonizadores, países vizinhos e com o mundo. Uma história de muitas humilhações. Porto inexpressivo até meados do século XVIII, começou a se desenvolver e ser reconhecida após a derrota no conflito anglo-chinês, denominado a Primeira Guerra do Ópio (1839-1842), – quando integrou a lista dos cinco portos abertos no país ao “livre comércio”. 

A Segunda Guerra do Ópio ocorreu entre 1856 e 1860. O contexto: no início do século XIX, as nações europeias só tinham autorização do governo chinês para fazer comércio através do porto de Cantão. Como era proibido aos europeus o comércio direto de seus produtos com a população, a Grã-Bretanha, que atravessava a Segunda Revolução Industrial, diante das medidas protecionistas do governo chinês, passou a vender ilegalmente ópio no país. Ópio, cultivado na colônia britânica da Índia. Em pouco tempo, os ingleses vendiam toneladas na China. O vício se espalhou. A liberdade de comércio desejada pelos ingleses nas guerras do Ópio destinava-se a vender a droga aos chineses, cuja venda, aliás, era proibida na Inglaterra.  

Quando a dinastia Qing proibiu o comércio de ópio pelos efeitos devastadores na população a marinha britânica agiu. Na Segunda Guerra do Ópio, os ingleses chamaram seus sócios menores, – franceses, russos e americanos – para enfrentar os chineses. Após a derrota destes, concessões foram estendidas aos aliados e ampliadas à Inglaterra. Foi com o Tratado de Nanquin que a Grã Bretanha tomou dos chineses este pedaço de terra de Shanghai, no qual se destaca o Bund, à margem do rio Huangpu. O Bund passou a ser reservado aos moradores britânicos e, ainda que pertencesse a China, estava submetido à jurisdição daquele país. Os ingleses ainda ganharam Hong-Kong e as indenizações de guerra. 

É a página mais dramática na história da China, denominada “século das humilhações” (1839-1949). França e Estados Unidos ganharam também em Shanghai seu naco de terra. A cidade virou um porto vibrante, a principal rota de livre comércio de ópio para a China e rota de “trabalhadores” para os EUA. As zonas de moradias ocidentais, por serem submetidas a legislação de seus países de origem atraiu toda sorte de bandidos chineses e ilegais. A prostituição cresceu e os negócios idem, tão rapidamente que logo Shanghai tomou de Ping-yao o posto de principal centro bancário chinês e chegou a ser o terceiro do mundo. O fluxo de comércio cresceu brutalmente, os ocidentais gostaram, os chineses nem tanto. 

Na virada do século 19 explode a “revolta dos boxers”, movimento de inclinação nacionalista e anti-ocidental. Entre perder esse “negócio da China” – o termo vem daí – os ocidentais fundaram o G-8 da época. Incluíram um sócio oriental para dar apoio logístico: o Japão recém-saído da Inovação Meiji. Assim britânicos, franceses, russos, americanos, se juntaram aos japoneses, prussianos, italianos e austríacos para dividir a China e evitar conflitos entre sócios. 

Foram divididas e separadas também as cabeças dos corpos dos chineses que participaram da revolta, os membros da sociedade secreta dos Punhos Harmoniosos e Justiceiros. Essa tarefa suja, para suprema humilhação dos chineses, foi imposta e designada a eles próprios. A Imperatriz Cixi, que governava de fato, mas não de direito, tudo aceitou e em troca preservou parte do império e a reconstrução do Palácio de Verão em Beijing. 

Shangai

Em 1937, Shanghai voltaria a representar humilhação aos chineses. Face a debilidade da República recém instalada, decidido a tomar a China de seus ex-parceiros ingleses e americanos, o Japão invadiu o vizinho, sob o slogan “libertação dos chineses da dominação Ocidental” . Japoneses cometem, nessa empreitada, o chamado estupro de Nanquin, então capital da China, onde massacram mais de 300 mil pessoas, em brutal limpeza étnica. 

A história de Shanghai é a síntese da relação da China com países colonizadores, países vizinhos e com o mundo. Uma história de páginas dramáticas, que batizaram um “século das humilhações” (1839-1949), em que este país continental se ajoelhou ao Ocidente e ao Japão. Foi a partir do fim da Segunda Guerra Mundial que os chineses voltaram a pensar o país em posição central no globo. É o início daquilo que em sua atual bibliografia histórica chamam de a era da “Inovação”, segundo exposição do Museu Nacional da China na Praça da Paz Celestial: trata-se do ocaso da dinastia Qing, com o surgimento dos movimentos nacionalistas, as guerras antinipônicas , a guerra civil e a ascensão de Mao Tse Tung e do Partido Comunista Chinês. Engloba e inclui-se a partir daí todo o esforço industrializante efetuado, ainda que em prejuízo de liberdade individuais e, em certo momento histórico, com os equívocos e absurdos cometidos pela Revolução Cultural.

É no entrelaçar das culturas, que a beleza de Shanghai, revela a dramática história com alguns suspiros de deleite, como o Yu Yuan – o Jardim da Felicidade – um oásis na metrópole, de 1559 (dinastia Ming), em que a clássica arquitetura chinesa está entrecortada por lindos jardins e pontes em linhas tortas, protegidas por muros coroados por um curvilíneo dragão de quatro patas (não cinco, como o dragão imperial, para evitar a ira do imperador). A 50 quilômetros de Shanghai, Zhujiajiao Water Tower, antiga vila construída há 1.700 anos entre canais, é ainda convite para se apreciar velhas casas em estilo tradicional e pontes, testemunhas de um tempo em que a prosperidade chegou com o negócio do arroz e da produção de roupas.

Se Napoleão tinha razão, se no extremo Oriente está o centro do globo ou o tremor da humanidade, não sabemos, mas uma coisa é certa. Olhar para o mundo hoje sem contemplar a China é não enxergar o futuro: o país concentrar 21% da população e lógico, dos consumidores do planeta. Somada à vizinha Índia, são 37% dos consumidores e, no entorno asiático são 62% contra minguados 12,7% da África, 10,8% da Europa, 8% na América do Norte, 5,6% na América do Sul e 0,9% na Oceania. Com estes dados se entende por que os americanos acusam o perigo da consolidação do eixo eurasiano.

Shanghai Skyline

Pontos Altos de Shanghai

  • O Bund, coração da cidade colonial, exibe símbolos do período em que foi dominada pelo Ocidente. O que fazer: Passear a pé pela calçada à beira do rio Huangpu.

     

  • Pudong, margem do rio Huangpu oposta ao Bund. Todas as edificações ali existentes – entre as quais três das mais altas torres do mundo – foram construídas depois de 1990. Em passeio de barco pelo rio, percorre-se, em uma hora, 16 quilômetros deste importante, com 110 quilômetros de extensão. A skyline futurista de Shanghai pode ser apreciada.

     

  • Observatório do Shanghai World Financial Center: ao topo do 101o andar, com 492 metros de altura, apresenta espetacular vista aérea das duas margens do rio Huangpu. Está encravado em uma infraestrutura urbana futurista, em que metrô, highways. Shoppings e elevados de pedestre interagem com elegância.

     

  • Museu de Shanghai: com 120 mil peças, tem relíquias do neolítico à dinastia Qing, cobrindo cinco mil anos de história.

     

  • Jardim Yu Yuan (Jardim da Felicidade) e Bazar: principais atrações da cidade antiga.

Beijing e a Cidade Proibida

Dentre todas as civilizações antigas que legaram o saber ao mundo – como a egípcia, a grega, a romana e a mesopotâmica – , a chinesa é a única que permanece de pé com a sua cultura e tradição singular, mas também com a sua língua e caligrafia, que remontam ao ano 600. A China era o Império do Centro, oásis civilizatório, circundado por um mundo percebido como “bárbaro”. E a Cidade Proibida, o centro da China. A sua intransponibilidade representou muito mais do que a distinção entre nobreza e súditos, mas antes, exibiu toda a exuberância do poder de um povo..

Para construir o complexo da Cidade Proibida- o que ocorreu entre 1406 e 1420, durante a Dinastia Ming – foram empregados cerca de 500 mil trabalhadores. O material utilizado foi trazido de toda a China. As árvores utilizadas para as vigas demoraram quatro anos para chegar até Pequim. Foram produzidos cerca de 100 milhões de tijolos e 200 milhões de ladrilhos. Quase quinze anos de trabalho e aquele que foi o centro decisório pelos séculos seguintes – que inclusive testemunharia em 1912 o ocaso da monarquia e de seu último imperador, Pu Yi, da dinastia Qing que foi mantido cativo pelos governantes republicanos. Ele saiu dali “liberto” pelos invasores japoneses para tornar-se um Imperador fantoche, numa tentativa de recriação do Estado Manchu. Nenhum esforço poderia ser considerado demasiado para construir a casa do imperador, o Filho do Céu. O peso, a dor e a alegria de mais de 600 anos de história estão descritos, na singular beleza de suas pontes, estátuas e edifícios, jardins distribuídas por 700 mil metros quadrados.

Foram nada menos que 24 imperadores. Em seus quase mil edifícios viveram serviçais, eunucos e concubinas, que serviam diretamente a família imperial. Cercado e protegido por uma muralha de 3,4 metros de extensão e 10 de altura, todo o complexo era guardado por uma segurança intensa, que servia para que a Cidade Proibida fizesse jus a seu nome, mantendo contrastante a divisão entre a realeza e a plebe: estava destinada aos nobres durante a dinastia Ming e aos manchus de alta procedência durante a dinastia Qing em contraposição aos Hans, a esmagadora maioria étnica do país. 

Pato Laqueado

Há poucos pratos na culinária mundial com o arcabouço histórico do Pato Laqueado, também conhecido como o Pato de Pequim, que possui um passado de mais de 700 anos. 

Apesar do nome, o prato teve origem na capital da província de Juangsu, Nanjing. O prato só chega a Pequim durante o século XV, quando o imperador Yongle, da Dinastia Ming, transladou o trono para a cidade. 

O crédito da formalização da receita tradicional está com a Dinastia Ming (1368-1644), mas a primeira menção à iguaria data de 1330, feita pelo inspetor imperial dos alimentos da Dinastia Yuan, Hu Sihui: . Ele escreveu um livro chamado Yinshan Zhengyao, que pode ser traduzido como “Comidas e bebidas essenciais para o imperador”.

Na versão de Hu Sihui, o pato deveria ser assado dentro de um carneiro e ele avisa que a carne da ave nunca deve ser consumida conjuntamente com carne de tartaruga. Ele também recomenda que não se deve comer estômago de boi com carne de cachorro. Dentre outras recomendações e receitas exóticas, o livro também ensina a preparar sopas de leopardo das neves e licor de ossos de tigre

O primeiro nome da iguaria foi Shaoyazi, que significa literalmente pato assado. Com a Dinastia Ming, houve a elaboração da receita e o prato ficou conhecido como o Pato Assado de Pequim. As cozinhas imperiais passaram a contar com um forno especialmente para o prato e seu tempo de preparo passou a durar três dias, dada a delicadeza e meticulosidade empregada pelos cozinheiros.

Apenas durante a Dinastia Qing (1644-1912) o prato foi levado até as classes mais altas e foi a partir daí que a fama da iguaria foi disseminada por grandes poetas e escritores. 

O primeiro restaurante popular a servir o prato foi aberto por volta de 1500, mas apenas na metade dos anos 1800 o prato se popularizou em Pequim, com a abertura do restaurante Quanjude, e pôde ser apreciado por toda população. A partir do século XX, refeição se tornou um dos maiores símbolos nacionais da China.

A pele do pato deve se separar completamente da carne e permanecer crocante, enquanto o interior do pato se torna macio e saboroso. Para atingir esse estado, os cozinheiros utilizavam o método chamado Menlu, com o forno fechado especialmente para o prato. Perto dos anos 1800, os patos passaram a ser pendurados dentro de um forno aberto, em um novo método chamado Gualu. Atualmente, os dois modos de preparo podem ser encontrados em restaurantes chineses e existe um debate que pretende definir qual dos dois gera um prato mais saboroso.

A importância do Pato Laqueado é tal que, em julho de 2014, a iguaria ganhou um museu inteiro dedicado a si, como forma de comemorar os 150 anos do restaurante Quanjude. O museu reúne curiosidades e informações sobre o preparo e a história do prato, além de contar com diversas fotos retratando celebridades e políticos internacionais degustando o pato, como o ex presidente estadunidense Richard Nixon.

Atualmente, diversos restaurantes na China e no mundo mantém a tradição da preparação original, entretanto vários chefs tentam agregar seus toques pessoais ao preparo da iguaria, tanto em relação a tempero quanto ao modo de preparo. Há até mesmo um ditado entre os locais que diz que a viagem a Pequim não pode ser considerada completa a não ser que o viajante tenha experimentado a iguaria.

A grande Muralha

Erguida do solo pelo primeiro imperador da China, Qin Shi Huang, logo após a unificação do país, a Grande Muralha da China é o maior símbolo de seu isolamento histórico e sua peculiar noção de vulnerabilidade e poder. 

A construção não é apenas uma muralha, mas sim um conjunto de diversos muros na região norte, construídos e reforçados por 2.000 anos por vária dinastias. Do século 220 a.C. até o século XV, muitas atualizações e novas utilidades foram atribuídas à Muralha, conferindo a ela uma noção de intransponível.  Entretanto, no século XIII ela foi transpassada pelos Mongóis e no século XVII pelos Manchus.

Tal qual um grande dragão de pedra, a Muralha serpenteia atualmente por cerca de nove mil quilômetros, entretanto no passado ela chegou a medir 20.000 km, atravessando colinas, desertos e planícies separando a rica cultura chinesa do resto do mundo. A altura média de seus muros é de oito metros e sua largura é de sete metros. 

Via de regra, a base da construção é feita de pedras grandes originárias de pedreiras locais, depois disso, há uma camada de tijolos cozidos assentados com uma argamassa de calcário com arroz viscoso. Após essa mistura, há uma segunda camada de pedras grandes e pedregulhos, seguida por uma de terra e carvalho socados. A superfície da Muralha é formada de placas de pedra e tijolos.   

Entretanto, os materiais utilizados para a sua construção variam conforme o relevo e o clima da região na qual estão inseridos. Alguns trechos possuem partes de galhos e gravetos colados com diferentes tipos de óleos. 

Há cada trecho há uma torre de modo a deixar nenhum trecho desprotegido, formando um complexo de cerca de 40 mil torres. Dessa forma, os arqueiros chineses estavam protegidos de quaisquer danos externos. Esses pontos também funcionavam como abrigo para soldados e trabalhadores, além de serem depósitos de comidas e outros suprimentos. Os maiores fortes estão localizados em Juyong Guan e Shanhaiguan.

Grande Muralha da China

Acredita-se que a construção empregou dois milhões de trabalhadores. No início, tal função era destinada apenas aos considerados “desordeiros” e condenados, entretanto após um tempo de sua construção ela também passou a ser responsabilidade dos próprios soldados quando a região não estava sob ataque. 

Além de auxiliar no transporte das tropas pelo imenso país, a Muralha também revolucionou as formas de comunicação por suas mais remotas regiões. As novas “tecnologias” aplicadas a partir da Muralha envolviam sinais de fumaça ou luz, o retumbar de tambores ou o dobrar de sinos e sinalização por fogo. 

Em 1421, Pequim se tornou a capital oficial e a Grande Muralha foi reforçada e ampliada. A Dinastia Ming foi a mais prolífica em relação à extensão da muralha, além de aderir à nova tecnologia de utilizar canhões para a defesa e para disparar sinais de socorro e alerta. 

A maior parte da muralha ainda não foi reconstruída e está gradativamente se desintegrando. Em muitos pontos, o que resta dela é apenas o núcleo da construção original.

A Muralha também possui museus no país dedicados inteiramente para si. O maior deles fica em Jiayuguan, considerada o último ponto avançado da China antes do Deserto de Gobi, o “trecho final” da Grande Muralha. A história desde a dinastia Han até a dinastia Ming é contemplada por esse grande museu, entretanto ele não é o único do país, seguido pelos museus de Dandong e Shanhaiguan. 

No século XX, Deng Xiaoping trabalha por dar mais relevância à Muralha, de modo a transformá-la no maior símbolo da China. De fato, em 1987 a UNESCO reconhece a construção como um patrimônio da humanidade. Em 2007, após um concurso, a Grande Muralha da China tornou-se, merecidamente, uma das sete maravilhas do mundo moderno.

Zhangjiajie

Picos de arenito, milhares deles, flutuam sobre o tapete branco, que se arma e desarma ao sabor do vento. Se num piscar de olhos a vegetação e a ravina, espetadas nas pontas atrevidas das finas formações de arenito, perdem-se no horizonte assombrado por nuvens ariscas; no minuto seguinte, uma rajada de luz varre o céu. A exuberância da floresta de pináculos – torres de pedra coroadas de vegetação e aves elevam-se a até 200 metros -, emerge de vales e margeando lagos. 

Bem-vindo ao Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie, que significa – “Reduto da família Zhang” -, referência à fuga do general Zhang Liang, no século III AC, de uma perseguição engendrada pelo imperador Liu Bang, da dinastia Han (206AC a 24 DC). Trata-se de uma das três reservas nacionais que compõe o complexo de Wulingyuan, na província de Huan, China Central. As duas outras que integram o triângulo de ouro do complexo são a Suoxiyu Nature e a Tianzi Mountain Natural. Desde 1992, Wulingyuan, que se estende por quase 250 quilômetros quadrados, foi reconhecido pela UNESCO como patrimônio mundial.

As paisagens de Zhangjiajie são muito peculiares, formadas a partir de sublevantamentos geológicos que trouxeram à tona, sedimentos pré-históricos fossilizados há 400 milhões de anos do leito marinho. O que se observa são grandes montanhas de arenito de quartzo, erodidas verticalmente por chuvas ácidas ao longo dos últimos dois milhões de anos, levaram ao seu colpaso e à formação de picos alongados. Quase como magia, robustos picos se erguem acima das nuvens, enquanto sustentados por  mais de 3100 elegantes e longas torres, que brotam de vales profundos.

Entrelaçam-se nessa exótica paisagem grandes cachoeiras e pequenas cascatas, lagos que, progressivamente, criaram cerca de 40 cavernas e túneis interligados, com luzes e cores quase sobrenaturais. Espécimes de fauna e flora, não mais vistos em nenhum lugar do mundo, se estabeleceram na região, que foi “apresentada” ao mundo Ocidental, após servir de inspiração para a concepção das Montanhas Aleluia de Pandora, do blockbuster Avatar. O universo do planeta utópico realmente veio de Zhangjiajie mas, dificilmente, as sensações que o filme nos provoca podem se comparar à forte impressão gerada pelo ineditismo dos cenários da região.

O complexo de Wulingyuan, é ao mesmo tempo mais belo e exótico do que as mais insanas criações do mundo fictício, especialmente quando os vastos vales povoados pelas florestas de picos irmanados à densa vegetação são apreciados do topo dos platôs que abraçam o cenário. Trilhas escavadas nos paredões de rocha abrem essas perspectivas. Mas é de fato por meio daquele que os chineses chamam de o mais alto elevador de montanha do mundo, – o Bailong Heavenly Ladder, que espíritos são empurrados por 335 metros a paisagens magníficas – Songzigang of Yanjiajie – , onde, conta a lenda Chisongzi, o deus da chuva, alcançou a imortalidade e ascendeu aos céus pela prática da meditação e o manuseio do cristal e do fogo.

Na região Norte do complexo, do topo da Montanha Tianzi, – a mais alta da região com 1.262 metros acima do nível do mar – estão os cenários mais belos de Wulingyuan, mas também, os mais difíceis de serem avistados. A neblina esfumaça frequentemente o horizonte, deixando à vista as sombras de milhares de agulhas rochosas. Da Yunqing Rock. turistas se amontoam na expectativa de que o céu se abra num vale de rochas coroadas pela vegetação verde. 

Essa bela montanha, antes da Dinastia Ming (1368-1644) chamada “Qing Yan Mountain”, foi palco da resistência da minoria étnica Tujia que, em 1353 iniciou uma revolta sob o comando de Ziang Dakun. Autodenominando-se Rei Xiang, filho dos céus, estabeleceu ali um reino independente. Mas em 1385 dez mil soldados sob o comando imperial de Zhu Yuanzhang (1328-1398) massacraram os insurgentes. Conta a lenda que o Rei Xiang teria se suicidado, ao lançar-se, montado a cavalo, sobre o vazio do precipício de 400 metros, chamado Shentang Gulf. Na pequena Village in the Sky, onde ainda estão instalados membros de minorias, a memória do Rei Xiang é reverenciada. E há quem acredite que ele ainda esteja vivo, enxergando em uma das exóticas e alongadas formações de quartzo de arenito, a sela de sua montaria. 

Labirinto de pináculos de arenito e florestas verdes, Shentang Gulf ainda permanece intocado pela presença humana. Em toda a área, seja sobre a Ponte dos imortais, monumental passagem natural sobre o desfiladeiro; seja ao observar as colunas que lembram os pincéis do imperador e ilustram os selos da China; há quem escute, quando se lança no descobrimento dessa reserva o soar de gongos, tambores, gritos de guerra e o relinchar de cavalos. Por que não? Em Zhangjijie persiste o espetáculo de belas e selvagens passarelas esculpidas nas rochas, vilas flutuantes de minorias éticas, cascatas, piscinas naturais, cânions e cenários místicos únicos, onde a natureza única se funde às lendas e magias, à ficção e à beleza sobrenatural. 

Cable Car – Zhangjiajie

O cable car balança, inclina-se, enfia-se em lagos de nuvens, ameaçando se chocar contra paredões das espetaculares montanha. Ao longo de sete quilômetros, por trinta minutos, os tripulantes da cabine envidraçada avançam, dependurados neste que é chamado de o maior teleférico entre montanhas altas do mundo. Durante aproximadamente 30 minutos, percorre 7,5 quilômetros, – do centro da cidade de Zhangjiajie até o pico, no Jardim Suspenso. Ascende lentamente a altitude de 1279 metros com inclinações de até 37 graus. Estamos no Parque Nacional da Montanha Tianmen, cidade de Zhangjiajie, na província de Hunan, China Central.

Nessa viagem suspensa, os cenários evoluem de plácidas planícies a picos que se elevam e se amontoam, pairando sobre colchões de nuvens ou em comunhão com a neblina. No balançar do trajeto vislumbra-se a Estrada do Céu (Heaven Linking Avenue) – ou será um dragão adormecido – em toda a beleza de suas 99 curvas, que, por 11 quilômetros serpenteiam e abraçam a montanha de Tianmen. Ao topo, passarelas de vidro de 100 metros de extensão, agarram-se nos paredões da montanha, pairando sobre o precipício. Denominada Coiling Dragon Cliff skywalk é referência à espetacular  panorâmica dessa incrível estrada do dragão, também opção em ziguezague, por terra, para a ascensão ao topo.

Para além das passarelas de vidro, uma das maiores atrações do Parque Nacional da Montanha Tianmen decorre da geologia predominante na região, de arenito, erodidas nos últimos dois milhões de anos pelas chuvas intermitente, dando origem a picos alongados característicos do complexo cênico de de Wulingyuan, localizado a quase 100 quilômetros, assim como a cavernas e grutas. É o caso da Porta do Céu  (Heaven’s Gate Cave ), uma caverna de 60 metros de profundidade transpassa a montanha Tianmen. Foi formada em consequência da erosão. Com 131,5 metros de altura, pode ser acessada a partir de uma íngreme escadaria de 999 degraus, chamada de Stairway to Heaven. A sequência de números 9 na escadaria não é acidental: na tradição taoísta é o símbolo do imperador, (filho do céu), portanto, símbolo da fronteira entre os mundos humano e divino. 

Tianmen também abriga o maior reduto de peregrinação budista da província de Hunan, o Templo Tianmenshan, edificado durante a dinastia Tang. Trata-se, em verdade, de uma reconstrução do templo original, destruído na guerra contra Taiwan. Guarda uma das maiores bibliotecas budistas da China. O novo templo se estende por 10 mil metros quadrados e possui a arquitetura típica da dinastia Qing em fusão com a esplêndida natureza nas montanhas de Tianmen.

Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie

O Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie é uma das três reservas nacionais que compõe o complexo de Wulingyuan, ao lado da Montanha Tianzi e o Vale de Suaxiyu. Esses mais de 4500ha na província de Huan, noroeste da China, contam com mais de 3.000 pilares de arenito que compõe algumas das mais belas paisagens do país e, provavelmente, do mundo. O complexo foi o primeiro parque florestal a nível estatal da China e, em 1992, Wulingyuan foi reconhecido pela UNESCO como patrimônio mundial. 

Apesar de contar com as três localidades distintas, o complexo como um todo é mais comumente referido como Zhangjiajie. O “novo” nome foi dado em 1994, a partir do reconhecimento da UNESCO, para dar mais importância à localidade. “Zhang” é um sobrenome relativamente comum no país, enquanto “Jia” pode ser traduzido como família e “Jie” como residência, reduto. A tradução mais próxima a que se pode chegar é, portanto, “Reduto da família Zhang” o que, na versão oficial do nome, se refere a uma fuga do general Zhang Liang de uma perseguição engendrada pelo imperador Liu Bang, da dinastia Han.

As maravilhas da região se devem a uma formação geológica muito peculiar do local, o Carste, que consiste em sublevantamentos geológicos que trazem à tona sedimentos pré-históricos fossilizados do leito marinho. O que se observa são grandes montanhas de calcário alcalinos erodidas por anos de chuvas ácidas. 

Quase como magia, grandes e robustos picos podem se erguer acima das nuvens enquanto sustentados por pilares mais finos de calcário. A vegetação e a ravina se adaptaram muito bem a tais condições, fazendo-se presentes por todos os vales e montanhas que integram o local.

Além disso, é possível encontrar desde grandes cachoeiras a pequenas cascatas e lagos que, progressivamente, criaram cerca de 40 cavernas e túneis interligados que possuem luzes e cores quase sobrenaturais. Diversos espécimes de fauna e flora que se estabeleceram aí não são vistos mais em nenhum lugar do mundo e, muitos deles, se encontram em extinção.

Quando, após exaustivas caminhadas ou passeios de teleférico, se chega perto do topo de alguma montanha, é possível observar as nuvens brancas estacionadas abaixo dos grandes picos de calcário. A vista engana. As montanhas parecem flutuar acima de um plano branco e macio. 

Se a ideia de picos mais altos que as nuvens, cercados por florestas, animais exóticos, bem como plantas e cavernas de cores magníficas soa um tanto quanto familiar, talvez você possa estar mentalizando o universo e as Montanhas Aleluia de Pandora, do blockbuster Avatar. 

A inspiração para a criação do planeta utópico realmente veio de Zhangjiajie mas, dificilmente, as sensações que o filme nos provoca podem se comparar à forte impressão gerada pela agressividade dos picos de calcário da região. De fato, o complexo pode ser ao mesmo tempo mais belo e mais assustador do que as mais insanas criações do universo fictício.

Como se não bastassem as belas passarelas naturais entre as montanhas, o local também abriga a maior ponte de vidro do mundo. Turistas podem atravessar a passarela e atravessar montanhas inteiras experimentando a vertigem de se estar no topo do mundo e pisar em um chão aparentemente fino e transparente. 

A ponte percorre, dentre os cânions de Zhiangjiajie, nada menos que 430 metros de distância, a uma altura de 300 metros acima do chão. Para custear todos os 99 painéis que percorrem o trajeto, cada um com três camadas de vidro transparente, o governo chinês desembolsou 3,4 milhões de dólares.

Pela apropriação da vertigem, da adrenalina ou apenas do espetáculo, mais de 10.000 pessoas passam pelo local por dia, o que aumenta a tensão de se imaginar uma situação de queda livre. O local também pode ser palco para os praticantes de rafting e até mesmo para quem deseja voar com um “wingsuit”. 

Com tantas características distintas e peculiares, o complexo agrada a todos os gostos. Seja você um apreciador da natureza, um intrépido aventureiro ou até mesmo um fã de cinema, a visita ao Parque Nacional de Zhangjiajie é absolutamente indispensável.

Guilin

Inesquecível pelos vários picos de carste, que constroem impressionante paisagem ao longo do Rio Li, – as formações se assemelham àquelas encontradas em Tam Coc, no Vietnã, a cidade de Guilin,  na região de Guizhou e Guangxi ao Sul do país, inspira poemas desde o século 6º. Foi a capital da província de Guangxi durante toda a dinastia Ming, mas perdeu posteriormente seu posto para Nanning. Guilin significa “floresta de osmanto”. A planta, gênero botânico encontrado na Ásia, Nova Caledônia e na América do Norte,está por toda a região.

O ponto alto da visita está no cruzeiro que, ao longo de seis horas, serpenteia o Rio Li, cortando montanhas cársticas que saltam das margens com imponência de até 300m de altura. As paisagens mais belas estão à margem da vila Xingping: o lindo cenário das formações cársticas está estampado na nota de 20 do antigo Yuan chinês. Dinheiro e cartões de créditos quase não são mais utilizados na China atual. Muito da tradição chinesa salta no percurso lento do barco: famílias agricultoras colhem arroz, florestas de bambu misturam-se às montanhas, pescadores em suas jangadas, utilizam a técnica de treinar comorões, para que os pássaros peguem os peixes, regurgitados na sacola da pesca. Essa técnica de é utilizada há milênios e se torna cada vez menos comum.

Outra atração de Guilin é Qixing Gangyuan, o Parque das Sete Estrelas, que se estende por 2km² às margens do Rio Li. Apenas no parque é possível encontrar uma variedade de mais de 100 espécies de macacos que habitam a vegetação cárstica. Dentre as formações do parque, há a Caverna das Sete Estrelas, que se estende por mais de 2km abaixo da montanha Putuo e é considerada uma das mais belas da China.

As estrelas que conferem nome ao parque e à caverna se referem os quatro picos da Montanha Putuo em conjunto com os três da Montanha Crescente, que tem o formato da constelação Ursa Maior que, segundo a crença chinesa, rege o futuro da nação. A Montanha Crescente é um espetáculo à parte, com seus 200 poemas e comentários entalhados em suas saliências. Alguns dos escritos remontam a Dinastia Tang (618-907).