Atualmente museu, Santa Sofia conta uma história de 1.500 anos que marcaram a humanidade. Foram três as construções ordenadas durante o Império Bizantino: a primeira, em 360 DC, por Constantino I – o Grande, que tornou a religião cristã oficial do estado; a segunda, 55 anos depois, por Teodósio II, fundador da universidade em Constantinopla e organizador dos códigos legais; e a terceira por Justiniano, em 537 DC, que legou um reinado de prosperidade.
Magnífica obra da engenharia, estudada por arquitetos e engenheiros do mundo inteiro, Santa Sofia foi construída no século 6 em apenas 5 anos. Chama atenção por sua imponência, beleza e pela cúpula majestosa que alcança 30 metros de diâmetro.
Assim como a Catedral de Córdoba, na Espanha, Hagia Sofia é observadora participante da história. Primeiro sucumbiu aos cristãos latinos, durante a Quarta Cruzada, quando a catedral cristã ortodoxa foi saqueada e profanada.
Em 1453, sob o comando do Sultão Fatih Mehmet, o Conquistador, Constantinopla caiu em poder dos turcos otomanos. Um primeiro minarete foi erguido ao monumento. Todos os mosaicos internos de Jesus, Virgem Maria e imperadores bizantinos foram sepultados sob o emplastro. Os sinos, o altar, a iconastase e os vasos sagrados daquela que foi por séculos a maior catedral do mundo foram removidos.
Santa Sofia tornou-se uma mesquita, em caminho inverso à Catedral de Córdoba, após a derrota moura no século 9. O período em que, pelos próximos 500 anos, o magnífico monumento de Santa Sofia se tornaria uma mesquita iniciou-se a partir do século XV. Em 1935 o fundador da República Turca, Mustafa Kemal Ataturk transformou-a em um museu. Desde então não há celebrações religiosas.
Os arqueólogos retiraram a pintura que cobria os mosaicos datados a partir do século 9. Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, cristãos e muçulmanos se irmanam neste espetacular templo museu, que carrega vestígios não apenas das duas religiões, mas também da mitologia grega.
A monumental Hagia Sofia levou à fundação de sua maior rival: a Mesquita Azul.
Conta a lenda que o sultão Ahmet I queria minaretes de ouro (“altin” em turco). Mas o arquiteto Sedefkar Mehmet Agã, responsável pela obra, teria entendido que ele desejava a construção de seis minaretes (“alti” em turco). Depois disso tiveram que adicionar um minarete à grande mesquita em Meca, que não poderia tê-los em número menor que a Mesquita Azul. As torres são usadas para a chamada da oração. O muezim – responsável pelo apelo, gritava : “Deus é grande e único, seu nome é Allah, Maomé é o profeta, venham rezar”. Atualmente, a maioria dos chamados são gravações.
Os muçulmanos rezam 5 vezes ao dia. Antes de orar lavam as extremidades do corpo – rosto, mãos e pés. Retiram os sapatos antes de entrar na mesquita. A sexta-feira é o dia mais importante de oração. Seria como o domingo dos cristãos.
Construída entre 1.609 e 1.616 onde fora fundado o palácio bizantino, a Mesquita Azul foi encomendada pelo Sultão Ahmed I, que sonhava com uma construção jamais vista em tamanho e em imponência. Incorporou plena e magnificamente a ideia original da cúpula bizantina da Santa Sofia. Aliás, a beleza do domo bizantino pode ser apreciada na maioria das mesquitas, por toda a Turquia.
E a obra cresceu em esplendor. A cúpula principal tem 43 metros de altura, 23 de diâmetro. Há janelas à volta de sua base, bem como sobre as semi-cúpulas que sustentam a principal, por onde propaga-se ao interior uma suave luz natural. Foram erguidos seis minaretes, o que à época foi considerada uma tentativa sacrílega de competir com a arquitetura de Kaaba, a Grande Mesquita de Meca.
Embora o seu nome seja Mesquita do Sultão Ahmet, pois era comum o sultão construir uma mesquita e, adjacente a ela, a sua tumba, os espetaculares vitrais, pinturas e cerâmicas com a cor predominante a rebatizaram. Foi nesta obra de arte que o azulejo Otomano atingiu o ápice de sua perfeição: azuis, verdes, turquesas e coral – coloração esta que cuja produção durou apenas meio século antes de desaparecer. As paredes da galeria e da sala real (hünkar mahfili) nos levam a um jardim e pomar floridos: com árvores frutíferas como romãzeiras, ameixeiras, parreiras, além de ramos e representação da alcachofra, cravos, tulipas e violetas.
Da mesma forma que na Hagia Sofia, medalhões trazem as inscrições em árabe: “Deus é único e seu nome é Allah” e “Maomé é o profeta”, além dos nomes dos quatro primeiros califas e de dois netos de Maomé.
*Nathalia Haas vive em Istambul. É guia reconhecida pelo Ministério da Cultura Turca.
Texto: Nathalia Haas (colaborou Bertha Maakaroun)
Imagens: Nathalia Haas, David Derrick e Bertha Maakaroun