Portovenere, a sexta e inebriante terra do amor

Dependuradas sobre paisagens cênicas na Riviera di Levante, costa oriental da Liguria, as aldeias italianas de Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore integram o Parque Nacional das Cinque Terre. Desafiam os tons cambiantes de azul Mediterrâneo, em casas multicoloridas, verticais, empilhadas umas sobre as outras às bordas dos penhascos.

FONTE: Wikimedia Commons

Misturam-se à natureza generosa, num estilo de ocupação humana que superou as escarpas íngremes e, por mais de mil anos, escalou e aprendeu a aninhar-se entre os relevos rochosos do alongado litoral. Vinhedos, olivais e pomares cítricos abraçam as vilas e triunfam em terraços de pedra. Não em  tempo distante, essas terras só eram acessíveis pelo mar, de onde, a milhas dali, os seus pescadores, na lida nas águas, guardavam sob as cores olhares atentos ao lar.

Carvada na rocha no início do século passado, a estreita trilha Sentiero Azzuro, – que significa Caminho Azul – recorta o parque das cinco vilas. Mas não por acaso foi batizado de Via dell’ Amore o trecho entre Manarola e Riomaggiore: beirais oscilantes ameaçam  com impressionantes panorâmicas o trekking e os gestos fortuitos entre amantes. A natureza bruta, esculpida pela mão do homem, moldada e intimamente integrada às suas necessidades vitais, é fonte permanente de inspiração.

Mas é de fato na “sexta” e pitoresca “terra” anexa a Riomaggiore, de onde, daquela espuma expelida pelo mar, em frente ao promontório de Punta San Pietro,  teria nascido a mitológica Vênus, em que a ode à beleza e ao amor ganhou iluminadas linhas de poetas e escritores. O porto da aldeia pescadora, notória em suas fazendas marinhas de mexilhões, exala os versos do Prêmio Nobel  Eugenio Montale. “Lá vem Tritão, das ondas que acariciam gentilmente o portal do templo cristão, a cada nova hora mais antigo (…) Aqui você habita as origens, onde decidir é tolo (…)” Lord Byron também se apaixonou por Portovenere. Costumava meditar na Grotta Arpaia”. “Rola, oceano profundo e azul sombrio, rola! Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão; de ruínas o homem marca a terra, mas se evola na praia o seu domínio (…)”. Portovenere está na embocadura do Golfo dos Poetas, digo Golfo de La Spezia.

Acredita-se que a ocupação inicial nessa cidade portuária  date do primeiro século Antes de Cristo, o que inclusive explicaria a sua denominação em referência ao antigo templo da deusa Vênus, onde em 1198 foi erigida a gótica Igreja de São Pedro. Sob o Império Romano do Ociente, a aldeia se manteve essencialmente  uma comunidade de pescadores. Mas com a sua queda, a partir do século 5º,  Portovenere tornou-se base da frota bizantina no Norte do mar Tirreno.  Destruída pelos lombardos em 643, tornaria-se mais tarde alvo de ataques de piratas sarracenos.

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No contexto da Idade Média, datam do ano de 1113 as indicações da primeira fortificação: Portovenere tornara-se um feudo de Grimaldo deVezzano antes de,  naquele mesmo século, ser adquirida  por Gênova. O interesse dos genoveses por Portovenere se explica: a cidade portuária estava situada a meio caminho da rival Pisa, com a qual disputava o controle do mar da Ligúria. O castelo foi reforçado  segundo os princípios medievais, para fins não apenas residenciais, mas sobretudo, militares.

Em diferentes ocasiões, entre 1165 e 1198, Pisa fracassou nas tentativas de dominar a vila portuária fortificada. Foi, contudo, em 1494, na guerra entre genoveses e aragoneses, que Portovenere foi atingida pela artilharia naval. Enquanto a parte velha do porto declinou, desenvolveu-se a região do Borgo Nuovo, ao redor da Igreja de São Pedro. Em 1575 o condottiero genovês, Andrea Doria erigiu um porto militar no Golfo de La Spezia e, em 1606, uma fortaleza na ilha vizinha de Palmaria, denominada  La Torre Scola . Todo o conjunto de Cinque Terre, Portovenere e ilhas estão inscritos na Unesco.

Portovenere caiu sob a dominação napoleônica no século 18, foi anexada ao Primeiro Império Francês até 1815, quando o território se tornou parte do Reino da Sardenha e, em 1861 integrada ao Reino da Itália. Ainda naquele século foi descoberta pelos poetas e eternizada em odes à beleza e ao amor.

Texto: Bertha Maakaroun