Por entre belas colinas e vinhedos de Valdobbiadene, o prazer do Prosecco

Mas as paisagens mudam ao ritmo das estações. E ao ritmo da história. As sangrentas batalhas entre italianos e austríacos, durante a Primeira Guerra Mundial, devastaram o território de Valdobbiadene. E se até os anos 70, a cidade vivia da produção do Prosecco, o vinho era pouco considerado entre críticos e consumidores. Foram os anos 2000 que o consagraram como um dos mais consumidos no mundo. Em 2014, a produção bateu a do champanhe e, segundo o Consorzio di Tutella del Prosecco DOC, espera-se para este ano a produção recorde de 400 milhões de garrafas.
Por entre belas colinas e vinhedos de Valdobbiadene, o prazer do Prosecco

A primeira vez que vi Valdobbiadene, a 40 km de Treviso, as videiras pareciam espantalhos enroscados uns aos outros. O frio de dezembro as transformava em personagens tristes de antigos filmes da Disney, prontos a ganhar vida. O rio Piave, palco de lutas da Primeira Guerra Mundial, tornava o ambiente mais melancólico.

Mas as paisagens mudam ao ritmo das estações. E ao ritmo da história. As sangrentas batalhas entre italianos e austríacos, durante a Primeira Guerra Mundial,  devastaram o território de Valdobbiadene. E se até os anos 70, a cidade vivia da produção do Prosecco, o vinho era pouco considerado entre críticos e consumidores. Foram os anos 2000 que o consagraram como um dos mais consumidos no mundo. Em 2014, a produção bateu a do champanhe e, segundo o Consorzio di Tutella del Prosecco DOC, espera-se para este ano a produção recorde de 400 milhões de garrafas.

O mundo que bebe o Prosecco é bem diferente daquele que o produz. Quem aprecia as festas de casamento, coquetéis, vernissages e comemorações regadas ao vinho frisante, nem em sonho imagina as paisagens encorpadas nas colinas de Valdobbiadene. Aqui o clichê funciona, e muito bem. É fácil encontrar em meio às estradinhas estreitas, em cima de um trator, aquele italiano em macacão, camisa listrada e chapéu. Quem sabe, até as bochechas coradas no verão ou, no inverno, coloridas pela grappa, um destilado apreciado pelos locais.

As colinas de Valdobbiadene com seus casebres antigos conservam a atmosfera rural do passado. Os restaurantes são em sua maioria agroturismos, estruturas administradas pelos próprios produtores. A cidade conta ainda com alguns espaços estilo “rural chique”, com grandes quartos e piscina, imersos no verde, para quem quer curtir o dolce far niente com privacidade, acompanhado de um Prosecco. Nada se compara a degustar o vinho em sua zona de produção.

Escondida em uma das inúmeras curvas da Strada del Prosecco está a insólita Osteria senza Oste, ou "Hospedaria sem hospedeiro".

Trata-se de uma casinha onde a porta está sempre aberta, assim como a geladeira e os armários. Ali tem Prosecco, refrigerante, queijos, salames, biscoitos… Cada qual consome e deposita o pagamento em uma caixinha. E se no inverno a lareira pode ser acionada; no verão, pode se sentar ao lado de outros exploradores, que chegam do mundo inteiro para conferir se essa Osteria é lenda ou realidade.

Em Valdobbiadene, a simplicidade dá o tom. O grande empresário do frisante ou aqueles que acabaram por encontrar o petróleo no terreiro de casa são camponeses que mantêm o estilo de vida rural e o bom papo. Falam com orgulho de como o Prosecco conquista o mundo e de como educam os seus filhos para seguirem com a tradição dos negócios da
família.

Durante a primavera, as cidadezinhas da região se revezam para sediar os eventos relacionados ao festival Primavera do Prosecco. A manifestação reúne nas paisagens mais belas das colinas, turistas em busca de gastronomia típica, diversão e boa companhia. Sobre as mesas compartilhadas, uma seleção de Prosecco das cantinas da região. Pratos e talheres de plástico, as toalhas quadriculadas mostram a que vieram.

Também no outono, os tons de amarelo pintam as colinas e os festivais gastronômicos  retornam com força total, valorizando como em toda a Itália, a sazonalidade dos alimentos. É o momento de experimentar pratos à  base de funghi, abóbora e castanhas.

Vindima após vindima, Valdobbiadene segue seu ritmo. Engarrafando momentos e distribuindo emoções que, certamente, jamais caberão em apenas um cálice. Tin tin!

Texto e fotos de Isabela Discacciati, jornalista e analista de mídias sociais. Residente em Treviso, é autora do blog http://www.italiaperamore.com