Em meio à paisagem desértica que se perde no horizonte entre o Mar Morto e o Mar Vermelho, escarpas rosas de até 80 metros cravam nas areias claras um estreito natural que se prolonga por pouco mais de um quilômetro.
O chamado “As-Siq”, cânion daquele que um dia foi o leito de um rio esporádico, guarda em sua entrada os resquícios de um arco monumental.
A caminhada pelo labirinto mágico, protegido do calor característico da região, se fecha subitamente numa fresta. Por ela, se insinua a monumental Petra, declarada Patrimônio Mundial pela Unesco.
Mais alguns passos e saltará à vista o Al-Khazneh – o Tesouro -, uma das preciosas joias desta espetacular cidade.
Há muitas lendas e teorias explicativas para a origem e o propósito do impressionante monumento Al-Khazneh. Seria o “tesouro” referência ao faraó, aquele citado no Antigo Testamento, que perseguiu israelitas durante o Êxodo do Egito? Ou teria sido a tumba de reis nabateus datada por volta de um século antes de Cristo? Há quem defenda a ideia de que trata-se de um templo dedicado à deusa Al Uzza, que seria a equivalente de Ísis do Egito. Ou há quem sustente que foi templo dedicado ao deus nabateu das caravanas, She´a-alqum.
O surpreendente é que sabe-se pouco sobre Al-Khazneh, que marca de modo contundente a chegada à capital rosa dos nabateus. É inquestionável, contudo, a variedade de estilos arquitetônicos e influências que mesclam elementos da cultura nabateia com a helenística e egípcia, reflexo de uma civilização de comerciantes que interagia com a África, Europa e Extremo Oriente, intermediando a venda de especiarias raras a um mercado de luxo principalmente em Roma, na Grécia e no Egito.
Os nabateus foram um dos povos mais brilhantes da história. Nômades procedentes de antigas tribos árabes daquela península se sedentarizam ao Sul da Jordânia, suplantando edomitas, povos que ali viveram a partir de 1200 AC, consolidando, já ao final do século 4º AC, um império fundado em um amplo sistema de relações políticas e econômicas.
Era penosa a travessia pelo deserto da Arábica até o Mediterrâneo com o incenso, a mirra e especiarias, adquiridas a baixos preços ao Sul da Península Arábica, atual território do Iêmen. A preciosa carga era revendida em Gaza, Alexandria e outros portos do Mediterrâneo, cujo destino final era o exigente mercado da Grécia e Itália, onde eram utilizados em cerimônias religiosas e para a produção de misturas medicinais. Eram igualmente transportadas mercadorias da Índia e China como ouro, prata, cristais, e sedas.
Estrategicamente posicionados, em postos a intervalos regulares, a organização dos nabateus evoluiu em cidades como Petra e Hegra, moeda cunhada e exércitos. Se não eram os próprios condutores das caravanas, eram também os seus “protetores”, provendo-lhes em troca de pagamento abrigo, água e comida.
Foi assim que os nabateus tornaram-se os mestres incontestes das rotas comerciais que uniam três continentes – África, Europa e Ásia – e uma variedade de civilizações e culturas. Dessa interação absorveram influências diversas e influenciaram o mundo. As receitas advindas da atividade financiou o império comercial nabateu, permitindo que erigissem a espetacular capital Petra, com jardins exuberantes, casas ornamentadas e elaborados monumentos no meio do deserto.
Enquanto Petra florescia, o Império Romano, no primeiro século depois de Cristo, pousava as vistas sobre o Oriente Médio. Ambicionando expandir as fronteiras, no ano de 106 assumiram o controle da capital dos nabateus.
Aparentemente, foi em princípio um domínio que não alterou o modo de vida daquele povo. Mas os romanos deixaram marcas inconfundíveis na velha cidade, cravadas em monumentos, esculturas e espaços públicos.
Descobrir Petra, complexo arqueológico nomeado em 2007 como uma das novas sete maravilhas do mundo, requer um dia de caminhada ou sob o lombo de um camelo ou de mulas. Os monumentos desta cidade, que a partir do primeiro século depois de Cristo caiu sob o domínio romano, estão espalhados por um vale e, alguns deles, escalam montanhas, a maioria esculpidos nas rochas.
Ao longo da “Rua das Fachadas”, mais de 40 tumbas ou possivelmente habitações, estão esculpidas em penhascos, debruçados pela rua das Colunatas, o anfiteatro romano e as ruínas do centro da vida urbana: o portal monumental, o templo Qasr el-Bint e áreas de mercado. A exploração da cidade escondida, revelada ao mundo em 1.812 pelo explorador suíço Johann Ludwig Burckhardt, também desvenda tumbas magníficas, entre as quais a de Sexto Florentius, que foi governador romano da Província Árabe no século II DC.
Além do Altar dos Sacrifícios, que descortina espetacular vista do vale rosado, é do alto do chamado Ad-Deir – Monastério – que não só Petra, mas igualmente a Jordânia se ajoelham aos nabateus. São 800 degraus talhados nas rochas até o topo, alguns penhascos escarpados.
Em estilo semelhante ao Al-Khazneh, à entrada de Petra, Ad-Deir delimita o fim da cidade colorida. Com 47 metros de altura talhados na rocha, é o maior do sítio arqueológico e, em geral, há consenso que tenha sido um templo, embora alguns especialistas afirmem que tenha sido uma tumba real inacabada. Em frente ao monumento, uma típica casa de beduínos entalhada na rocha.
Texto: Bertha Maakaroun
Imagens: Barbara Maakaroun
Edição Vídeo: M3 Vídeo