Os pés se apoiam sobre os remos enquanto as pernas pedalam. A canoa corta as águas do rio Ngo Dong, desvendando paisagens deslumbrantes.
Pictures?, pergunta àqueles que se preparam para o passeio. Pede 20 dólares[1]. Ofereço dez. Ela ri e diz que não. Estou pouco à vontade para negociar no Vietnã. Concordo. Hang, mãe de dois filhos, se enfia então em uma outra canoa e, com a energia de quem pratica desde criança, rema vigorosamente com os pés, emparelhando o seu bote ao nosso,buscando nos enquadrar na paisagem. Aponto para a minha própria câmara – o celular – e lhe pergunto: “Posso?” Ela assente. Passo eu a registrá-la.
[1] O salário médio de uma pessoa economicamente ativa no Vietnã é de 200 dólares. A moeda é o Dong Vietnamita. Cada Dong Vietnamita vale aproximadamente 21,6 mil dólares. Muito bem-humorados, os vietnamitas brincam: “Aqui você é um milionário”.
Trata-se da região na Província de Ninh Binh, município de Tam Coc, a 101 quilômetros da capital Hanoi, também conhecida como a Halong Bay in the rice fields. Às margens, torres calcárias, diversas em formas, pontiagudas ou arredondas, desdobram-se em cavernas, que datam da era Miocênica entre 24 milhões e 5 milhões de anos -, emolduram as plantações de arroz. Do verde intenso aos tons de amarelo e marrom, irão se modificar segundo as estações do ano e o período de plantio e colheita.
A canoa a remo desce o rio Ngo Dong e as paisagens se revelam sob as expressões de encantamento dos turistas que por ali se aventuram.
A cada dobra do Ngo Dong, despontam novas formações de rochas carboníticas, em cujas fendas a água drenada abre passagem rasgando dutos e cavernas. Em seu trajeto, o barco cruza três delas – Hang Ca, Hang Hai e Hang Ba. Daí o nome da cidade: Tam Coc significa três cavernas. Na primeira delas a barqueira esquece os pés nos remos e abre passagem empurrando o teto com as mãos.
No escuro e sob o silêncio quebrado apenas pelo choque do remo na água, o fio de luz desponta do outro lado indicando a saída.
Ao sair da primeira gruta, ainda mais espetacular, ao alto, encravado no topo de novos paredões, reina absoluto o Pagode de Bich Dong (literalmente, o Pagode da Caverna de Jade)2. Esculpido por dentro das montanhas calcárias de Ngu Nhac, que se abrem para o Vale Truong Yen (Vale Ensolarado), o pagode data do século XV.
[2] Edificado sob a dinastia Le, o pagode de Bich Dong tem três estruturas, – Há Pagoda (baixa), Trung Pagoda (média) e Thuong Pagoda (superior), a começar pela primeira, edificada na base da montanha e separada por 160 degraus, muitos deles cavados dentro de cavernas onde está o pagode intermediário e o terceiro, no topo da montanha. Do alto descortina-se uma bela vista dos arrozais.
Do barco que corta o rio e se embrenha por novas grutas, onde o conforto do escuro se mistura ao eco das remadas -, vai se revelando o país, onde nada é tão belo que não possa ainda ser mais.
Próximo dali, em percurso de carro ou em bicicleta, 500 degraus em Hang Mua, até o altar dedicado à Deusa da Misericórdia (Quan Am) são convite para um dos mais deslumbrantes cenários do Vietnã.
Uma após a outra as montanhas se empilham e se perdem sob o horizonte, cortadas pelo manso leito de um rio desenhado pelos arrozais mais espetaculares do mundo.