O vento esculpe e o sol colore oceanos de areia em Wadi Rum

A confissão de amor ao deserto de Wadi Rum, conhecido como Vale da Lua, é do inglês Lawrence da Arábia, registrada na obra The Seven Pillars of Wisdom, nome que batiza uma entre as milhares de formações rochosas que emergem, colorem e submergem nas areias panorâmicas dos 720 quilômetros quadrados de área protegida ao Sul da Jordânia, Patrimônio da Humanidade.

“Adentramos a avenida do vale, ainda espetacular sob as cores do por do sol: penhascos tão vermelhos quanto as nuvens a Oeste; como estas, em escala gradiente erguendo-se ao céu. De novo sentimos como o Vale inibia a nossa excitação por sua beleza serena. A grandiosidade deste entorno nos encolhia. Arrancava o manto da efusiva alegria com o qual a nossa trupe havia percorrido o acampamento …"

Na obra, um diário de campo, o autor descreve não apenas o movimento nacionalista árabe contra a dominação turca, como parte do esforço britânico na Primeira Guerra Mundial para derrotar a Alemanha, da qual a Turquia era aliada. Mas, em sua interação com os povos árabes e o magnífico deserto, registra paisagens, retratos, emoções, pensamentos sobre a vida e a morte, a lealdade e a traição.  Publicado pela primeira vez quase vinte anos depois, em 1935,  o livro foi classificado por Winston Churchill como “um dos maiores já escritos na língua inglesa”.

Neste vale “elevado” – Rum deriva possivelmente do aramaico Ramm, e significa “alto” – um oceano de areia, rochas e formações estranhas são testemunhos históricos que retrocedem à  transição do período paleolítico para o neolítico,  – quando as civilizações evoluíram de nômades para assentamentos permanentes, baseados na agricultura e no comércio. Carregam o testemunho de 12 mil anos de ocupação humana em tons de rosa, vermelho, amarelo e bege.

Do amanhecer ao entardecer, cores cambiantes brincam com a luminosidade. Da comunhão entre areia, rochas e o vento, incansável escultor em labirintos de montanhas, pontes de pedra e cânions, Wadi Rum exibe paisagens vastas e silenciosas.

Estampados em rochas mais 25 mil petroglifos, e 20 mil  inscrições, principalmente, tamúdicas – a mais antiga escrita arábica, desenhos de animais como camelos, ibex e cavalos, e figuras humanas agarradas a ossos e a flechas. Há também registros dos nabateus e, mais tarde, escritos de adeptos do Islã e em árabe, que tornam a região o mais cênico livro a céu aberto.

Apesar do extenso legado histórico à humanidade da evolução da ocupação da região, foi de fato a conquista de Aqaba levada às telas do cinema em épico de 1962, que tornou o deserto de Wadi Rum mundialmente conhecido. Esculpida em rochas de vários cantos está a imagem do inglês Lawrence da Arábia, que se infiltrou entre beduínos, tornando-se naquela Revolta Árabe de 1916, a ligação entre as tribos rivais rebeldes e o exército britânico.

Entalhados nos montes rochosos estão também Auda Abu Tayi, beduíno chefe dos Howeitas e o Sharif de Meca Hussein, da dinastia Hachemita. Trio do movimento insurgente, o inimigo comum daqueles árabes e ingleses na Primeira Guerra Mundial, era o Império Turco Otomano.

A derrocada dos turcos na região só foi possível pela tática levada pelo inglês aos árabes de ataques terroristas aos trens na única ferrovia que alimentava a região a Hejaz Railway. A ferrovia foi presente dos alemães aos turcos, numa tentativa de seduzi-los para aliança na Primeira Guerra Mundial.

As ações terroristas de Lawrence, as promessas dos ingleses de entronizar Hussein, rei do Hejaz, num projeto da nação árabe unida; e o dinheiro inglês, que atraiu os beduínos, selou a aliança entre as antigas tribos árabes rivais. Os três líderes ousaram atacar a importante cidade portuária de Aqaba pelo deserto de Nerfud, algo considerado militarmente impossível.  Em lombos de camelos e sob o sol impiedoso, os árabes fizeram a épica travessia, alcançando por detrás os canhões turcos, voltados para Gaza, do outro lado do Mar Vermelho, de onde esperavam o ataque inglês.
Pegos de surpresa, os turcos perderam Aqaba e com ele o único porto que tinham na região. À queda de Aqaba, em 1917, seguiu-se a conquista de Damasco: os árabes penetraram e conquistaram a cidade antes das tropas inglesas do General Allenby.

A campanha árabe foi a única "vitória" inglesa no conflito contra otomanos.

Foi também a única em que as tropas regulares tiveram um papel secundário. Por isso, tão logo Damasco foi tomada, Allenby e o Rei Faisal, filho de Husseim, se livraram de Lawrence, devolvendo-o à Inglaterra.

De volta ao Império Britânico, Lawrence submergiu  por cargos menores no exército e na aeronáutica, evitando expor-se como celebridade que já era,  até encontrar o seu destino num acidente errático de moto. Afinal, como diria Friedrich Nietzsche: “Nada acontece na vida de um homem que não se pareça com ele”.

Não demorou muito para Husseim descobrir que as promessas inglesas valiam tanto quanto os seus exércitos. O Oriente Médio foi retalhado entre franceses e ingleses pelo acordo Sykes-Picot. Husseim tentou governar o Hejaz, mas foi destronado por seus inimigos sauditas. Aos seus dois filhos couberam os prêmios de consolação: Abdullah ficou com a Jordânia, que não tinha petróleo algum, nem água, mas sem a Palestina, entregue pelos ingleses aos judeus.

A Síria foi “dada” à Faisal,  mas quando  quis de fato governar, foi expulso pelos verdadeiros donos, os franceses. Os ingleses o acomodaram no recém-criado Iraque. Faisal, como se sabe, não durou muito pois ao contrário da Jordânia, o Iraque tinha petróleo e água. Terminou enxotado por militares árabes precursores de um movimento pelo qual ascendeu Sadam Hussein. Os árabes perderam o seu destino pelas mãos dos que os ajudaram a traçar.

Texto e imagens: Bertha Maakaroun

Edição do vídeo: Barbara Maakaroun Gomes