Amanhece em Acajutuba, a 40 quilômetros de Manaus. As aves afinam a voz. Ancorado à margem do Negro, o barco ameaça embicar a um igarapé, pequeno riacho que corta a floresta, onde uma vegetação submersa brota d’água. A vida pulsa. Árvores pequenas, emaranhados de cipós, majestosas vitórias-régias, mucuris, bromélias. Na água preta, as sombras de tambaquis zanzam em busca de frutas e sementes largadas das árvores. Com mais de dois metros de comprimento, pirarucus abrem caminho pelos solos alagados. O rio Negro abraça a floresta e manso, acalenta a embarcação.
O primeiro europeu a navegar no Rio Negro foi Francisco Orellana, um espanhol que aportou na América aos 16 anos para integrar a expedição de Francisco Pizzaro em 1527.
A expedição conquistou Cuzco, capital Inca. Orellana perdeu um olho na batalha em que os espanhóis, aliados aos indígenas adversários dos Incas, derrotaram o Imperador Atahualpa. Aos 21 anos, juntou-se ao irmão de Francisco Pizarro, Gonzalo Pizarro e partiu em nova aventura em busca do “El Dorado”, a lendária figura que se cobria de ouro porque banhava-se em uma lagoa coberta do metal. Dez meses depois de partirem de Quito, sem encontrar ouro, e com a comida escassa Gonzalo e Orellana decidiram se separar. Com mais 59 homens e alguns arcabuzes, Orellana desceu por afluentes até o Rio Amazonas. Não descobriu ouro, não achou o El Dorado e ficou à deriva, tendo de comer até o couro de suas botas para sobreviver. Em 3 de junho de 1542 descobriu um rio de águas tão escuras que o batizou de Negro.
As terras da região foram disputadas por espanhóis e portugueses. Apesar de os primeiros terem conseguido o domínio legal pelo Tratado de Tordesilhas, quem de fato teve a posse foram os portugueses que, em 1669, fundaram um pequeno forte, onde hoje se situa Manaus, chamado “Forte de São José da Barra do Rio Negro”. Em 1755 este deu nome à Capitania de São José do Rio Negro.







Nas palavras de Ailton Krenak, autor de Antes o mundo não existia: “Nos lugares onde cada povo tinha sua marca cultural, seus domínios, nesses lugares, na tradição da maioria das nossas tribos, de cada um de nossos povos, é que está fundado um registro, uma memória da criação do mundo. Nessa antiguidade desses lugares a nossa narrativa brota, e recupera o feito dos nossos heróis fundadores. Ali onde estão os rios, as montanhas, está a formação das paisagens, com nomes, com humor, com significado direto, ligado com a nossa vida, e com todos os relatos da antiguidade que marcam a criação de cada um desses seres que suportam nossa passagem no mundo”.
São muitas narrativas que compartilham uma noção de reencarnação: quando uma pessoa morre, um aspecto de sua alma retornaria à “casa de transformação”, local de origem do grupo. Depois, a crença é de que a alma voltaria ao mundo dos vivos encarnada em um recém-nascido, que leva o seu nome. O aspecto visível dessas “almas-nomes” são os cocares de penas usados pelos dançarinos, enterrados com os mortos.
Quando construíram o forte, os portugueses já não estavam mais preocupados com os espanhóis e sim com os holandeses, que ameaçavam o seu território a partir das fortificações construídas onde hoje é o Suriname (antiga Guiana Holandesa)
Às margens desta magnífica hidrovia, onde o olhar se perde entre o céu e o espelho das nuvens, pequenos e grandes povoados e diversas tribos indígenas. Ali estão, por exemplo, os Dessana-Tukana, uma etnia que tem origem no Alto Negro, rio Tiquié, perto da fronteira com a Bolívia. Algumas dessas comunidades, como a Aldeia Tupí, estão hoje no baixo Rio Negro. O acesso só se dá pelo rio. De um lado o Negro. Do outro, a floresta sem fim, com uma profusão de árvores que variam de baixas, troncos finos e espaçados nas proximidades das margens a gigantes que, mata adentro, têm entre 30 e 60 metros de altura.
As tribos da família linguística Tukano compartilham uma área geográfica contínua e um modo de vida bá¡sico, que inclui caça e coleta, com predomínio da pesca e da agricultura de coivara. A chamada “mandioca brava” é o principal produto. Ornamentam o corpo e usam os mesmos instrumentos musicais.
Cada grupo tem o domínio sobre um território ou trecho do rio e está tradicionalmente associado à produção de artefatos específicos: os Dessana fabricam cestos; os Tuyuka canoas. Os rituais de troca entre as tribos ocorrem a partir desses artefatos, quando também dançam, bebem caxiri, exibem os seus ornamentos de penas e recitam as linhagens de seus antepassados.
Na oca principal o pajé dá as boas-vindas. Antes de apresentar os rituais, ele descreve como as músicas, danças e cantos explicam as origens do cosmos, e neste, o lugar dos seres humanos e as relações entre os diferentes povos e diferentes seres vivos.
Texto e fotos: Bertha Maakaroun
Edição e vídeo: M3 Vídeo