Mulheres de Padaung, sociedade matriarcal que inspira o mundo

As cabeças elegantes parecem flutuar sobre um longo e reluzente pedestal de metal. Passaram a ser chamadas na antiga Burma de Padaung. Literalmente, long neck ou pescoço longo.

Elas fazem o polimento cuidadoso, todas as manhãs, de seus pesados colares considerados mágicos

O grosso fio de metal, sempre reluzente, produzido a partir de uma mistura de prata, ouro e bronze é também por vezes minuciosamente enrolado abaixo dos joelhos, descendo até os tornozelos.

Essas mulheres que creem descender da mãe dragão, fazem todas as manhãs o polimento cuidadoso de suas argolas mágicas, com uma combinação de lima, palha e casca de tamarindo.

A partir dos cinco, algumas meninas recebem o colar. Ano após ano, um novo aro é acrescentado. Por volta dos 20, ele pode alcançar cerca de 25 centímetros de altura, pesando sete quilos.

Entre faixas coloridas nos cabelos que saltam dos próprios teares, as comunidades indígenas dos Kayan Lahwi , do grupo dos Karenini, – uma das etnias Karen vivem nas montanhas do Norte da Tailândia em vilas criadas para o turismo.

É a região do chamado Triângulo do Ouro, onde as fronteiras de Miamnar ex- Burma -, Laos e Tailândia são cortadas pelos rios Mekhong e Ruak.

Muitas deixaram Miamnar em botes, e estão refugiadas na Tailândia, sem direitos civis. O maior fluxo migratório ocorreu nos anos 90 para escapar da brutalidade de uma ditadura instalada em seu país natal a partir da década de 60, que perseguiu e aniquilou as minorias étnicas.

Nas primeiras décadas do século passado as mulheres de “pescoço longo” espantaram o mundo. Transformada em província da Índia em 1886, a antiga Burma, ato contínuo, tornou-se colônia do Império Britânico. Despertaram a atenção de etnógrafos, fotógrafos, e empresários…

Eram as excêntricas. Algumas foram arrastadas Europa afora em circos itinerantes e exibidas como as “mulheres girafas”, segundo registra Edith Mirante, autora de Down de Rat Hole: Adventures Underground on Burma´s Frontiers. Outras, tornadas cativas, eram emprestadas, usadas, oferecidas a oficiais da fronteira tailandesa.

Edith Mirante é pesquisadora de direitos humanos e escritora, autora de Down the Rat Hole: Adventures Underground on Burma’s Frontiers (Orchid Press, 2005). Ela é responsável pelo Project Maje, que distribui informações sobre os direitos humanos em Burma.
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Parecem ter se perdido no tempo as razões para que as mulheres Kayans usem as argolas na região do pescoço, nas pernas e braços. Seria uma proteção natural contra ataques de tigres, antes muito comuns naquelas regiões de florestas? Ou seria porque assim se transformariam em mulheres menos atraentes aos outros homens de outros povos, evitando estupros e sequestros? Uma outra explicação dada para o costume é que ele distinguiria facilmente as mulheres Kayan, possibilitando, após períodos de guerras inter-tribais, o resgate daquelas raptadas mantidas cativas.

Nascido em uma tribo Kayan em Miamnar, o escritor Pascal Khoo Thw considera em sua obra From the Land of Green Ghosts que esses anéis sãoo uma forma simbólica de as mulheres Kayan se conectarem à “mãe dragão”. Acredita-se, nessa tribo, que ao se relacionar com um anjo na figura híbrida de um homem, a mãe dragão deu origem a esse povo.

Revestidos de um aspecto mágico e simbólico, Pascal relata que, em sua infância, esses colares eram considerados uma espécie de santuário familiar: quando a criança adoecia, por exemplo, as avós permitiam que tocasse a armadura.

A prática dos colares que “alongam” os pescoços seria mais antiga do que o Budismo, tendo sido absorvida pelo catolicismo, que no século passado “converteu” a tribo. Na rotina do dia a dia, as mulheres também usavam essas argolas para guardar dinheiro e pequenos presentes, ao ponto de o escritor chamar os colares de “árvores de natal ambulantes”.

Vários mitos cercam as mulheres Padaung. O maior deles é de que elas jamais poderiam tirar as argolas, pois os seus pescoços se quebrariam. Na verdade, o que ocorre com aquelas que optaram por usar o colar é que as argolas exercem pressão sobre os ossos da clavícula e afundam a caixa toráxica, causando a ilusão de alongamento do pescoço.

A partir do século XV, o poder Khmer entrou em decadência. A genial obra de uma civilização foi lentamente sepultada pela floresta. Mas nunca abandonada, uma vez que, ali permaneceram os budistas que, a partir do século XIV tornaram-se a força religiosa preponderante no já então débil reino Khmer. Foi em 1860 que o complexo de Angkor Wat chamou a atenção e se popularizou no Ocidente, por meio da apaixonada descrição do naturalista e explorador francês Henri Mouhot, registrada em seus cadernos de viagem do Sião, Camboja e Laos:

Nascido em uma tribo Kayan em Miamnar, o escritor Pascal Khoo Thw considera em sua obra From the Land of Green Ghosts que esses anéis são uma forma simbólica de as mulheres Kayan se conectarem à "mãe dragão".

Na mitologia desta tribo, a sua origem é atribuída ao relacionamento entre a mãe dragão (fundadora) e um anjo na figura híbrida de um homem. Revestido de um aspecto mágico e simbólico, Pascal relata que, em sua infância, esses colares, que não são dados a todas, mas apenas a algumas meninas nascidas em certos dias da semana quando a lua encerra o ciclo, eram considerados uma espécie de santuário familiar. Quando a criança adoecia, por exemplo, as avós permitiam que tocasse a armadura. A prática dos colares que “alongam” os pescoços seria mais antiga do que o Budismo, tendo sido absorvida pelo catolicismo, que no século passado converteu a tribo. Na rotina do dia a dia, as mulheres também usavam essas argolas para guardar dinheiro e pequenos presentes, ao ponto de o escritor chamar os colares de “árovres de natal ambulantes”.
Pascal Khoo Thwe é um premiado autor, da minoria Kayan, tribo da antiga Burma, atual Miamnar. Foi o primeiro membro de sua comunidade a estudar inglês. Formou-se em Cambridge. Dentre as suas obras, estão From the Land of Green Ghosts, autobiografia em que relata a sua trajetória, desde a infância na tribo, passando pela conversão dos Kayan ao cristianismo, ao sequestro e assassinato de sua namorada pela ditadura e a sua atuação como guerrilheiro nas florestas de Burma na luta pela criação de um estado independente para o seu povo.

Nas regiões montanhosas em que vivem as tribos Padaung, o costume das argolas fundou o que Edith Mirante chama de "uma das poucas sociedades matriarcais do mundo moderno".

Com a mobilidade reduzida em decorrência das pesadas armaduras de metal no pescoço e pernas, os homens assumiram tarefas domésticas e aprenderam a ajudar no cuidado das crianças. De fato, quando circulamos em uma das vilas das Padaungs situadas na cidade de Mae Hong Son –  arredores de Chian Rai -, o que vemos são elas à frente das barracas de artesanato produzindo e comandando o próprio negócio. Os homens da tribo ou estão em atividades domésticas ou trabalham fora, muitos deles em campos de elefantes, como mahouts (treinadores).

A quem pergunta, elas avisam: os colares não as impedem de fazer o que todos fazem. Cantam, dançam, tocam instrumentos, jogam vôlei, caçam libélulas em lanças afiadas, tecem, tiram o seu sustento do artesanato e do turismo. Algumas falam várias línguas e se comunicam em inglês, espanhol, italiano…. São as geniais descendentes da mãe dragão, que cuidam de  suas armaduras encantadas, com as quais, mostram ao mundo a que vieram.

Texto e imagens: Bertha Maakaroun

Edição do ví­deo: M3 Vídeo