Sobre a água picante de tão salgada, um boiar involuntário e permanente, ao estilo de uma rolha varrida ao sabor do vento, eis a reveladora experiência do corpo lançado ao Mar Morto. Entre remelexos para a acomodação sobre os tons translúcidos de azul-cobalto, à altura do olhar, o horizonte árido se fecha sobre o Monte Nebo a 60 quilômetros dali, na Jordânia, onde a “Terra Prometida” foi, segundo a Bíblia, revelada a Moisés.
Esse “mar” – que em verdade constitui um lago endorreico que banha a Jordânia e Israel – é o descanso final do Rio Jordão, “aquele que desce” ou “lugar onde se desce”, ambos possíveis significados para o curso d’água estendido sobre territórios que guardam os mais antigos vestígios conhecidos da civilização humana: nasce ao Sul da Síria, no Monte Hermão, rasga vales, atravessa o Lago Hulé e o Mar da Galileia e finalmente alcança o final de sua jornada após uma trajetória de 200 quilômetros, no ponto mais baixo do planeta, o Mar Morto, este encerrado a 430 metros abaixo do nível do mar.
Nas últimas seis décadas, em decorrência do aumento da captação de água do Jordão, o Mar Morto perdeu 35% de sua superfície, hoje em torno de 650 quilômetros quadrados.
São bíblicas as mais marcantes e milenares referências a esse lago com a maior concentração de sal do planeta: a lenda associa a sua origem às cidades de Sodoma e Gomorra, possivelmente situadas à sua margem. Diz a Bíblia que, quando Deus revelou a Abraão que Sodoma e Gomorra seriam destruídas pela ganância e os pecados de seus habitantes, o patriarca das três principais vertentes do monoteísmo, pensando no sobrinho Ló e em sua família, que viviam em Sodoma, teria implorado a Deus que poupasse as cidades se 10 pessoas “justas” ali fossem encontradas.
Dois anjos foram enviados e, tendo julgado naquela categoria apenas Ló e a sua família, advertiram-lhes para evacuar sem olhar para trás. Durante a fuga, a mulher de Ló teria olhado para trás e se transformado em estátua de sal.

Sodoma e Gomorra possivelmente foram abatidas por um terremoto em torno de 1900 a.C., dada a localização geográfica do Mar Morto. A hipótese é provável: está na porção norte do Grande Vale do Rift, formado pela falha de uma longa fronteira de placas tectônicas, circundado a leste pelas áridas e desérticas montanhas da Jordânia e marcando a oeste a linha de Israel e dos territórios da Cisjordânia.
As evidências arqueológicas, inclusive, indicam que essa área fora fértil por volta de 2000 a.C. a 1500 a.C., em decorrência daquele que um dia foi o abundante curso do Rio Jordão, que encerra a sua viagem sobre esse “mar”. Nada a estranhar se Ló escolhesse a região para o cultivo, até ser surpreendido pela catástrofe, na localidade rica em petróleo, o que explicaria o imaginário do “fogo e enxofre”.
Dessa região vêm as referências daquelas que estão entre as descobertas arqueológicas mais importantes do século 20: os chamados “manuscritos do Mar Morto”, encontrados em 1947 por dois beduínos árabes em cavernas na região montanhosa e árida de Hirbet Qumran, no deserto da Judeia.
A descoberta inicial atraiu pesquisadores e arqueólogos que, em buscas nas redondezas, desencavaram 930 manuscritos em hebraico, aramaico e em grego em 11 cavernas, entre os quais, 210 reproduzem livros da Bíblia hebraica – para cristãos, do Antigo Testamento.
Em meio ao “tesouro histórico”, havia também escritos não bíblicos, como o Manual de disciplina ou Regra da comunidade, que descreve rituais e práticas da rotina da comunidade de Qumran, em torno da qual ainda pairam divergências entre pesquisadores. Para alguns, esse grupo seria identificado com os essênios, um ramo do judaísmo dos primeiros séculos da era cristã. Para outros, Qumran foi um espaço de culto ou um local para a produção de pergaminhos destinados à confecção dos manuscritos.
A incógnita persiste. Tanto quanto a brutalidade dos conflitos nessa região, que, por vezes, deixa à vida apenas o alento da poesia, expressa nas palavras do escritor jordaniano Ibrahim Nasrallah: “talvez quando a água ansiava pelo fogo, criou as ondas, de tal forma que, algum dia, estas possam se tornar chamas”.
Reportagem publicada pelo Correio Braziliense em 25/02/2018