19/22 – Monumento na Praça da Vitória marca as heranças da resistência russa

Construção guarda na história o inferno vivido pela população da antiga Leningrado, que sofreu o maior cerco da Segunda Guerra Mundial.
Monumento na Praça da Vitória marca as heranças da resistência russa

Praça da Vitória, São Petersburgo. Na chegada da cidade de heróis está fincado o portal monumental, voltado para a capital, Moscou, como se estivesse pronto a receber a parada triunfal. Estamos falando do monumento aos Heróis Defensores de Leningrado, do arquiteto Sergei Speransky, em referência à Segunda Guerra Mundial. Foi cravado nas proximidades do ponto em que os russos estabeleceram a sua linha de defesa, detendo as tropas nazistas, apenas 20 quilômetros à frente.

Foram “900 dias e 900 noites”, tal qual indica a inscrição em cirílico, nas duas extremidades de um amplo círculo interrompido, – onde brilha a “chama eterna” da memória histórica desse povo – que, como um anel quebrado, esculpido em granito, se abre ao imponente obelisco em formato estilizado de uma baioneta.

Ao topo da baioneta-obelisco, o marco temporal do conflito – 1941-1945 -, guardado pela representação de um operário e um soldado, na tradicional pose do neoclassicismo soviético. Ladeiam o hall monumental esculturas de M. Anikushin, que imortalizam o esforço, emoção e horrores da luta épica de soldados, marinheiros e civis, que, apesar da fome, do frio e sob bombardeio intenso, não se renderam.

O sofrimento da população de Leningrado, hoje São Petersburgo, durante aqueles quase três anos de cerco a que foi submetida, também se reflete na escultura ao centro do círculo interrompido, Uma escadaria conduz.

Tudo nesse monumento é simbólico. O círculo incompleto, que abriga em seu subterrâneo o museu com exibição sobre a Batalha de Leningrado, representa o cerco rompido e a saída pela famosa Estrada da Vida. Em seu pior momento, a única rota disponível para manter a cidade viva ao fornecimento de alimentos e à evacuação foi construída sobre o congelado Lago Ladoga.

Era mantida dia e noite por uma frota de caminhões e veículos leves usados para transportar alimentos, carvão mineral e outros suprimentos. Quando o gelo afinava muito, carroças eram empregadas para o transporte. Qualquer animal morto era despedaçado e enviado à cidade para servir de alimento.

Definitivamente, o cerco de Leningrado foi o maior acontecimento épico da Segunda Grande Guerra. Se Stalingrado representou o ponto de inflexão do conflito, Leningrado foi o mais dramático. Durante a ofensiva nazista, denominada Operação Barbarossa do Norte, os alemães, voluntários fascistas espanhóis e filandeses mobilizaram no cerco à cidade 800 mil soldados. Os russos defendiam-na com 920 mil. Entretanto, cada cidadão foi chamado para construir as fortificações.

Em Leningrado, morreram quase 600 mil soldados alemães e 700 mil russos. Mas maior drama viveram os civis. Da população inicial de 3 milhões, 1,2 milhão foi exterminado por fome e frio – o abastecimento de energia elétrica foi cortado – e por doenças.

Nos piores momentos do cerco, a alimentação foi racionada a um pão diário a cada habitante. Episódios de canibalismo foram registrados. A ordem de Hitler, de literalmente matar a cidade de fome, foi levada a extremos pela Wehrmacht. Mas, 900 dias e 900 noites depois, a rigor 872 dias e 872 noites, em 27 de janeiro de 1944, os russos emergiram do inferno, legando ao mundo a história contada hoje em seus monumentos.

(Colaborou Eugênio Gomes).

Reportagem publicada pelo Correio Braziliense em 01/10/2017