06/22 – Convento das donzelas, das muralhas de Novodevichy saltam cúpulas douradas

A construção, de 14 edificações é considerada um dos mais belos trabalhos da arquitetura ortodoxa do país.
Convento das donzelas, das muralhas de Novodevichy saltam cúpulas douradas

Encarcerada na Torre de Naprudnaya, uma entre as 12 do Convento-fortaleza de Novodevichy, Sophia Alekseyevna (1657-1704), regente do Czarado da Rússia entre 1682 e 1689, perdera a disputa política para o seu meio-irmão Pedro 1, que entraria para a história como Pedro, o Grande (1672-1725), primeiro imperador da Rússia. Pela estreita janela, o campo de visão de Sophia não alcançava o Rio Moscou, que corria ao largo das muralhas.

Mas, antes, era dirigido aos corpos suspensos dos rebeldes, a quem ela apoiara nove anos depois do seu aprisionamento na revolta dos regimentos Streltsy (1698). Sophia, que aquele convento reformara e embelezara enquanto nele vivera nos anos da minoridade de seu irmão Ivan 5, e de Pedro, período em que, com mão de ferro regera a Rússia, ali morreu e foi enterrada.

Das brancas muralhas do Convento de Novodevichy, por vezes traduzido como Convento das Donzelas, saltam torres vermelhas, cúpulas douradas e prateadas que coroam a catedral, igrejas e torres. Encravada numa das curvas do Rio Moscou, a obra-prima da arquitetura ortodoxa russa é considerada uma das mais belas do país. Erigida entre os séculos 16 e 17, tinha também o claro propósito defensivo, antecipando ao Kremlin o alarme a qualquer sinal de batalha ou ameaça externa proveniente daquele flanco.

Com cinco domos em formato de poderosos capacetes ao topo de uma estrutura de formas simples, a Catedral de Nossa Senhora de Smolensk, à semelhança da Catedral da Dormição do Kremlin, foi a primeira a nascer ali, em 1524, por obra do grande príncipe de Moscou Basílio 3, que reinou entre 1505 e 1533. Foi dedicada ao ícone da Virgem Hodegétria de Smolensk (Aquela que mostra o caminho) para celebrar a reconquista do território de mesmo nome, sob domínio dos lituanos: as antigas terras de Rus (Rússia Kievana) haviam sido reunificadas.

Todo o complexo soma 14 edificações, entre as quais, além da Catedral de Nossa Senhora de Smolensk (1524-1525), um santuário, o campanário (1683-1690), que se eleva a 72 metros com a sua Igreja de Barlaão e Josafá, duas capelas e outras quatro igrejas, prédios residenciais e de serviços. Diferentemente da primeira catedral de pedras brancas e formas retas, coroada pelas cúpulas ortodoxas do século 16, a maior parte delas é do século 17 e foi feita por Sophia Alekseyevna, no curto período de sua regência, dentro do estilo denominado Barroco de Moscou.

Sophia Alekseyevna não foi a primeira nem a última nobre exilada no Convento de Novodevichy, ligado aos grandes momentos da história russa. Para lá, o seu meio-irmão, Pedro, o Grande, também despacharia a primeira esposa, a czarina Eudoxia Feodorovna Lopukhina (1669-1731), para casar-se com aquela que ficou conhecida como Catarina 1, da Rússia, que reinou entre 1725 e 1727, depois da morte de Pedro.

O Convento de Novodevichy foi igualmente o destino da czarina Irina Godunova, que, aos 41 anos, ficou viúva do czar Teodoro 1 (que reinou entre 1584 e 1598). Antes de se tornar freira, contudo, assumiu o comando da sucessão do trono, entregando-o ao seu irmão Boris Godunov, que comandou a Rússia entre 1598 e 1605. Teodoro e Irina não tiveram filhos. Terminava ali a dinastia Ruríquida, iniciada em 862, com o viking Rurik.

Assim como os muros externos do Kremlin de Moscou acolhem e celebram ao mundo grandes nomes de sua história, adjacente ao Convento-fortaleza de Novodevichy, no Cemitério de Novodevichy, também descansam ícones da literatura, físicos, matemáticos, líderes políticos e ex-presidentes.

Ali reina o silêncio, por vezes quebrado num farfalhar ou num sussurro. Sabe-se lá de onde vem, dessa cosmopolita capital russa. Talvez da tumba de Vladimir Maiakovski (1893-1930): “É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida, morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício”.

Reportagem publicada pelo Correio Braziliense em 08/06/2018