Uma sinfonia se espalha do campanário elevado no século 17, que acolhe 15 sinos, cada qual com o seu batismo, entre eles Sysoy, homenagem ao fundador da cidade. Entre as badaladas, faz-se o silêncio. Hora para a contemplação.
Ao fundo do espelhado tapete de água doce, a silhueta da fortaleza de Rostov se desenha numa das margens do velho Lago Nero, possivelmente formado há 500 mil anos. O desabrochar de cúpulas embaralhadas entre verdes, cinzas e dourados, tantas quantas sejam as 11 torres, catedrais e igrejas cercadas pela muralha, desafia o horizonte.
Rostov Veliki, como é conhecida pelos russos, integra o imperdível circuito do Anel de Ouro, que abraça a capital, Moscou. O seu primeiro registro é de 862, considerada a data oficial da sua fundação, o que faz dela uma das mais antigas cidades da Rússia. Na Primeira Crônica ou Crônica de Nestor – detalhada leitura sobre a formação política do povo eslavo oriental, entre os séculos 9 e 12, Rostov é descrita como território do povo fínico –, Merya, que passou a ser governado pelo viking Rurik.
Os arqueólogos acreditam que, às margens do Lago Nero, ao Sul de Rostov, estaria Sarskoe Gorodishche, a capital, tendo sido pacificamente assimilada pelos eslavos orientais depois da incorporação da região pela Rússia Kievana, no século 11.
A dramática história de Rostov tem as feições dos principados forjados na resistência às invasões externas para a consolidação do Estado eslavo, que viria a se constituir nesta que hoje chamamos de Rússia. Cidades como Rostov foram, nos séculos 13 e 14, inundadas e devastadas pelas incursões tártaro-mongóis das Hordas de Ouro, abrindo um longo período de humilhações e de escravidão. Havia ainda o perigo representado pelo catolicismo que se fazia presente pelos poloneses e lituanos, que invadem Rostov em 1608.
Depois, e em parte em decorrência dessas constantes ameaças externas, o Kremlim de Rostov alcança a sua atual feição, entre 1660 e 1690, com a sua identidade configurada no cristianismo ortodoxo. Foi edificado sob a supervisão da figura eclesiástica do Metropolitana Iona Sysoevich, para servir de sua residência.
Com as suas 11 torres defensivas – algumas delas são igrejas – também de propósito decorativo, resguarda um conjunto arquitetônico integrado por três seções – a Praça das Catedrais, o Tribunal dos Bispos e o Jardim Metropolitano – cercados belas catedrais, igrejas, monastérios, os salões Branco e Vermelho, atualmente museus, além do campanário mais famoso da Rússia (1680), do alto do qual se abrem belas panorâmicas do Lago Nero.
Rostov Veliki é uma dessas joias do início de uma russa eslava – escrava ainda, mas que, depois de cada invasão, reafirmava seus princípios –, como fez nessa pequena cidade à beira do Lago Nero, que segue, nas baladas de seu campanário – um dos mais famosos da Rússia –, testemunha do correr da história.
Ali foram plantados os fundamentos desta que se tornou a maior nação eslava do mundo: a adoração ao Deus humilhado, mas que renasce, uma religião de luta com seus Kremlins, além de um desejo de paz expresso no interior de suas catedrais.