Luxemburgo, a Gibraltar do Norte no coração do velho continente

No coração da Europa, implantado sobre elevadas falésias debruçadas sobre o rio Alzette, o castelo do Conde Siegfried, das Ardenas, foi chamado em 963 de Lucilinburhuc, em saxão, “Pequena Fortaleza.

Apesar de a fortificação natural já ter sido identificada pelos romanos, que ali haviam edificado uma torre de vigília sobre a estrada entre Reims e Tréveris, foi de fato sob a proteção do castelo que a partir do século XI desenvolveu-se aquela que hoje conhecemos por Luxemburgo.

Patrimônio da Humanidade, a cidade antiga cresceu à sombra do castelo, em vale profundo, na confluência dos rios Alzette e Pétrusse. Guardada naturalmente pelos penhascos íngremes, com a sua expansão ao Norte, no século XV foi levantado ao seu redor o primeiro circuito de muralhas. Estas evoluíram e se estenderam nos séculos seguinte, para acompanhar o crescimento da cidade e as necessidades de defesa introduzidas pelos novos armamentos de guerra.

A posição estratégica de Luxemburgo, na passagem da rota comercial e militar entre os territórios do Sacro Império Romano e do Reino da França, aliada às favoráveis condições topográficas de defesa da fortaleza, foram fatores centrais para que se tornasse uma das mais cobiçadas da Europa.

No epicentro das guerras entre potências para consolidação e expansão de seus respectivos estados nacionais, a cada novo jugo, foi reconstruída e reforçada a partir do século XVI  até o ano de 1867 – quando foi demolida.

Capturada em um ataque noturno surpresa pela Casa de Borgonha em 1443, foi legada aos Habsburgos em 1477, dentro da astuta fórmula mágica das uniões dinásticas: “Que outros guerreiem enquanto tu, feliz Áustria, concluis casamentos”.

Passou pelo domínio espanhol e francês. Destes incorporou a chamada Fortaleza Francesa, idealizada pelo marquês de Vauban, genial engenheiro militar, introdutor daquele que ficou conhecido como o estilo Vauban de fortificação, uma marca do absolutismo francês da era de Luis XIV.

Até o Congresso de Viena, em 1815, que redesenhou as fronteiras da Europa após as guerras napoleônicas, Luxemburgo esteve sob a França, inclusive foi anexado em 1795, no decorrer da Revolução Francesa.

Na redivisão do continente, após a derrota da França Napoleônica, contudo, ao mesmo tempo em que recebeu o título de Grão Ducado de Luxemburgo, a maior parte de suas terras foram confiscadas e divididas entre belgas e holandeses. Anos depois foi tomada pela Prússia, passando a integrar a Confederação Germânica.

Para além das ocupações militares alemãs nas duas Grandes Guerras em 1914 e em 1940, na Idade Média, as tentativas para controlar essa posição militar –  que hoje constitui um dos menores países do mundo, mas de maior PIB per capita– só cessaram em 1867, quando Luxemburgo se uniu à Revolução Belga em apoio ás províncias do Sul do Reino dos Países Baixos, rebeladas contra a hegemonia protestante das províncias do Norte. O Tratado de Londres firmado entre as potências europeias – Reino Unido, Império Austríaco, França, Reino da Prússia e Império Russo – e o Reino Unido dos Países Baixos, garantiu a independência e a neutralidade da Bélgica, assim como a independência de Luxemburgo.

Apesar do desmonte de suas fortificações, Luxemburgo carrega o testemunho dos conflitos medievais europeus e a evolução da arquitetura militar e do conceito das fortalezas, a partir do desenvolvimento dos novos armamentos e equipamentos de guerra. As ruínas do castelo sobre a elevação rochosa chamada de Bock, assim como vastos caminhos pelas muralhas e galerias subterrâneas – as casamatas – , portões, bastiões ainda exibem as marcas dessa herança, que lhe conferiu, no século XVIII  a alcunha de  “Gibraltar do Norte”.

Texto: Bertha Maakaroun
Imagens: Yoo Chung
Fonte : Wikimedia Commons , Pixabays