Declarada pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade, o seu charme e beleza cativaram os chineses que decidiram copiá-la: uma réplica da praça central do mercado, com a neogótica Evangelical Church of Christ e o espetacular lago foi construída na periferia de Huizhou, Província de Guangdong, no Sul da China.
As ruazinhas são calçadas e estreitas. Seja da magra e comprida faixa onde se encerra a cidade; seja pelo alto das montanhas; ou seja pelo lago; por todos os lados que se observa, abrem-se cenários magníficos.
Hallstatt é um pequeno e preservado enclave arquitetônico, circundado por montanhas que alcançam três mil metros de altitude
A Igreja Evangélica de Cristo foi construída em 1863 depois que o Imperador Habsburgo Josse II, católico, resolveu tolerar as manifestações evangélicas no Reino da Áustria.
Casinhas de arquitetura alpina encostadas umas às outras, acotovelam-se às margens do Hallstatter e ameaçam escalar os monumentais aclives. Essa é uma das perspectivas do lago, rodeado pela paisagem dramática das montanhas que aprisionam o vale encantado e mudam de cor segundo as estações ao longo do ano. De dentro da cidade, a perspectiva lateral é a da delicada torre neogótica da Evangelical Church of Christ, dominando o cenário urbano que se choca com os maciços alpinos ao fundo e, ao mesmo tempo, é acalentada pelas plácidas águas do lago que banham a cidade. Pelo funicular, que desafia a lei da gravidade escalando uma das encostas, vão se abrindo novas perspectivas de paisagens deslumbrantes: um quadro romântico do século XIX, milimetricamente desenhado, se eleva e parece flutuar, à medida em que lentamente, o carrinho alcança o cume.
Hallstatt é encantamento cenográfico, mas também carrega a história de uma civilização.
A atividade humana foi iniciada ali cerca de 2000 AC. Sob esse espetacular maciço que encerra a pequena cidade, está Salzwelten, aquela que é considerada a mina de sal mais antiga do mundo. Daí deriva o nome da vila medieval: hal (sal em alemão ocidental) e stat (assentamento em alto-alemão antigo).
Nascida do sal, mineral que provavelmente já era extraído por volta de 3000 AC para ser levado ao mar Báltico e Mediterrâneo, a cidade aparentemente foi fundada por povos celtas. Na Idade Média foi próspera, o que se reflete na delicada arquitetura, toda reconstruída no século XVIII, depois de um incêndio que a deixou em cinzas.
Talvez pela importância do seu produto, o sal era, em fins do século XIII, objeto de cobiça de reinos e impérios – e mesmo de bandidos. Com a consolidação da Monarquia dos Habsburgos, Hallstatt foi protegida: em 1.282 foi construída a Torre Rudolf, batizada com o nome do primeiro rei da linhagem, onde hoje há um restaurante com vista espetacular para o lago e a região. A cidade se converteu em importante centro comercial a partir do início do século XIV e, duzentos anos após, em 1595, foi construída a primeira tubulação com 40 quilômetros de extensão para o transporte de sal das minas de Hallstatt até Ebensee.
Alto-alemão antigo refere-se ao estágio da língua alemã, cobrindo o período em torno do ano 500 até 1050.
A cidade nasceu do sal e provavelmente tenha declinado durante o período de ocupação romana, dado que não se tem notícia de fatos importantes a ela associados nessa fase histórica, assim como no início da Idade Média.
Hallstat foi também cenário de importantes conflitos religiosos que se intensificaram com a Reforma religiosa. Bem ao centro da cidade, elevada sob a montanha, a Igreja Paroquial Católica data do final do século XII e foi espaço ocupado pela resistência de exércitos ora católicos e ora protestantes. Em 1601, a cidade assistiu a uma feroz rebelião protestante. Com respaldo na pregação reformista, os mineiros se insurgiram contra a exploração. Os habitantes de Hallstatt derrubaram todas as pontes que ligavam a cidade ao resto do país. O Bispo de Salzburg promoveu a época uma intervenção com tropas e condenou à morte os revoltosos.
Foi a partir do século XIX, mais precisamente em 1846, com a descoberta de um cemitério pré-histórico nas redondezas de Hallstatt, que os arqueólogos tiveram a dimensão da complexidade daquela civilização. Duas mil lápides, com objetos funerários revelaram tal valor, que a cultura celta do período compreendido entre 800 e 400 AC foi denominada civilização de Hallstatt: marca a transição das culturas da Europa Central da Idade do Bronze tardio de 1000 AC até 700 AC ao início da Idade do Ferro de 700 até 400 AC.
O processo de reformas religiosas teve início no século XVI. Entre as causas, os abusos cometidos pela Igreja Católica e uma mudança na visão de mundo, em desdobramento ao pensamento renascentista. O monge alemão Martinho Lutero foi um dos primeiros a contestar os dogmas da Igreja Católica. Em 95 teses, condenou a venda de indulgências considerando que a salvação do homem ocorria pelos atos praticados em vida e pela fé. Na França, João Calvino começou a Reforma Luterana em 1534, defendendo a salvação da alma como resultado do trabalho justo e honesto, ideia que atraiu muitos burgueses e banqueiros. Na Inglaterra, o rei Henrique VIII rompeu com o papado e fundou o anglicanismo. Em 1.545, preocupados com o avanço do protestantismo e com a perda de fieis, bispos e papas reunidos na cidade italiana de Trento traçaram a contra-reforma. Foram tempos de intolerância. Em muitos países europeus as minorias religiosas foram perseguidas e muitas guerras entre católicos e protestantes foram feitas em nome da fé, entre elas, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).
Texto e imagens: Bertha Maakaroun
Edição Vídeo: M3 Vídeo