Colonia Del Sacramento, a joia do Prata

Ao cair do sol as águas barrentas, que aqui e ali abraçam ilhotas, ganham um tom dourado escuro e se perdem na linha do horizonte. Ainda sobre o mirante do farol construído em 1857 pelos colonizadores portugueses saltam, em meio à vegetação, as cúpulas azulejadas da Basílica del Santíssimo, que conserva a concepção original de uma só nave e os muros de pedra. Colonia del Sacramento, no Uruguai – apenas uma hora e meia de barco de Buenos Aires -, é a joia do Rio del Plata. Seria uma típica cidade colonial portuguesa – que em algum sentido lembra Parati. Mas as marcas da presença espanhola e das ocupações pós-coloniais do século XIX propiciaram um sincretismo único de estilos, que elevou em 1995 o seu bairro histórico a Patrimonio Cultural da Humanidade.
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Na extremidade do cabo, abraçado por um oceano doce que nasce da confluência dos rios Uruguai e Prata, o farol abre paisagens espetaculares.

 

Circundada por uma muralha, o “Portón de Campo”, precedido por uma ponte levadiça, abre acesso ao preservado centro. Vivendas, casas com telhados de duas águas, igrejas,  ruínas de conventos e de construções típicas dos séculos XVII, XVIII e XIX, algumas separadas por largas praças e o farol são tesouros da herança colonial emoldurados pelo mar doce e vegetação.

Em meio às ruas calçadas, algumas com as pedras originais, a Calle de los Suspiros conserva o traçado tipicamente português do primeiro período colonial, tendo o rio como o plano de fundo. O nome teria sido atribuído à esta rua localizada logo à entrada da cidade porque os escravos por ali seriam conduzidos antes de serem executados.

Valendo-se de limites um tanto incertos do Tratado de Tordesilhas, de 1494, Colonia del Sacramento foi fundada em 1680 pelo então governador do Rio de Janeiro Manoel Lobo. A localização era estratégica, uma vez que a partir da posição daquele cabo, a Coroa Portuguesa controlaria a circulação de mercadorias, de escravos e principalmente a entrada e saída do continente pelos rios Uruguai, Paraná e Paraguai. Eram diversos interesses: ao Sul da Bolívia estava Potosí,  aquela que na ocasião era a maior mina de prata do mundo.

Internamente, o castelo incorpora aquela que era a mais moderna tecnologia da época: engenhos a vapor e eléctricos, ventilação moderna e canalizações de aquecimento. São seis mil metros quadrados, distribuídos em quatro andares, diversas torres e com uma decoração que não deixa dúvida em relação à admiração de Ludovico II por Richard Wagner. 

 

O importante centro urbano de Colonia foi intensamente disputado por quase um século entre Portugal e Espanha, estando sob o domínio ora de um ora de outro, até que os primeiros o perdesse  para a Coroa Espanhola, após o Tratado de Santo Idelfonso em 1777.  Mas a cidade retomou aos portugueses em 1801, no acordo de paz das duas nações ibéricas, preocupadas, com a ameaça napoleônica.

Em 1817 com a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves uma força portuguesa invadiu Montevidéu e anexou ao Brasil a maior parte do atual território uruguaio, de modo que no momento da Independência do Brasil, todo o território uruguaio, integrava a Província Cisplatina.

Mas os ventos da Independência já sopravam forte  nestas paragens do Sul da América. Em 1828, Colonia Del Sacramento, a última posição do  já então Império do Brasil na região, foi alcançada pela Cruzada Libertadora dos Trinta e Três Orientais, que, sob o comando de Juan Antonio Lavalleja e com o apoio das Províncias Unidas do Rio da Prata, colocou fim ao domínio brasileiro sobre o  território da Província Cisplatina. O Acordo entre o Império e as Provincias Unidas do Rio da Prata, mediado por ingleses selou o destino final de Colônia, com a criação da República Oriental do Uruguai.

Colônia del Sacramento é uma joia arquitetônica e sua história expressa um pouco a da América do Sul.

Muito sangue foi derramado nas diversas guerras coloniais e pós-independência pela posse dos territórios. Mas nem portugueses, nem espanhóis, nem brasileiros, argentinos ou uruguaios que as disputaram foram os verdadeiros vencedores. Usando uma imagem do talvez mais conhecido escritor uruguaio, estes tiveram a vaca; os ingleses beberam o leite e o sangue

Texto

Bertha Maakaroun

Imagens

Monica Volpin , Diego Delso , Rodoluca

Fonte

Wikimedia Commons