As badaladas do Mercado da Ribeira

O sino anuncia a cada fornada crocante. Está entre as sete maravilhas da gastronomia portuguesa e foi transportada do século 19, diretamente do Mosteiro dos Jerônimos, onde a receita manipulada por séculos numa das oficinas do pecado ... oops, digo, do segredo, atingiu a perfeição. Antes mesmo do gozo da primeira bocada, o olhar e o olfato se rendem à sedução.

FONTE: Wikimedia Commons

Os pasteis com recheio cremoso foram apresentados ao mundo em 1834, pelos monges abatidos pela Revolução Liberal portuguesa de 1820. Foi um tempo em que os ideais liberais, trazidos pelos ventos da Revolução Francesa, varreram Portugal. A sua natureza anticlerical levou à abolição do Tribunal do Santo Ofício, órgão odiado pelos portugueses, responsável pelos horrores da Inquisição.

Conventos e monastérios encerrados,  mestres da culinária, trabalhadores e clérigos foram lançados à rua. Enfrentando em Lisboa, cidade dos mercadores, o dilema da sobrevivência, os cozinheiros do paraíso, que um dia produziram, entre outros delírios, essa delícia na pequena refinaria de açúcar do espetacular Mosteiro dos Jerônimos, passaram a comercializá-lo  a poucos metros dali.

A portinha aberta ao paladar à margem direita do Tejo, na chamada freguesia de Belém, foi lentamente ganhando fama.  Isso porque de Lisboa, moradores e visitantes, deslocando-se em barcos a vapor, eram atraídos para visita à Torre de Belém, um dos mais belos monumentos da cidade, edificação que no século 16  integrara a formação de defesa da bacia do Tejo. A 1,5 quilômetro dali,  visitavam igualmente o imponente Mosteiro dos Jerônimos,  jóia  lapidada em pedra da arquitetura manuelina do século 16. Após tanto esforço, recuperar energia em deleite do pastel passou a integrar o roteiro. E logo, para alguns, as prioridades do passeio se inverteram.

Por longo século, os ingredientes mágicos dessa receita de deuses foram mantidos sob  juramento de silêncio. Mas porque segredo algum resiste ao tempo,  os pasteis de nata transpuseram os muros da antiga Confeitaria de Belém – atualmente Pasteis de Belém , ainda localizada no mesmo ponto,  a poucos metros do Mosteiro dos Jerônimos.  Se ali ganharam o nome da região, são encontrados num cem número de casas sob o batismo genérico.

Confeccionado artesanalmente à perfeição do estalar sob os lábios da massa que acolhe o recheio cremoso à base de leite e ovos, cada mordida é um novo assalto às papilas, empurrando fracos mortais à irresistível gula. Melhor ao ponto, quente, com o recheio salpicado pela canela se desmanchando nos lábios. No Mercado da Ribeira, – ou será a releitura do Mercado 24 de Julho dessa cidade de naus, descobrimentos e mercadores – , uma das fábricas desses prazeres, a Manteigaria emprega à aventura degustativa mais um sentido, o da audição. Os tabuleiros pulam do forno; por eles os sinos convidam.  

Texto: Bertha Maakaroun