Angkor Wat, apogeu de uma civilização perdida

Nestas palavras do frei capuchinho português Antonio da Madalena foram registradas, em 1.586, as primeiras impressões de um ocidental ao vislumbrar o maior, mais fascinante e imponente monumento religioso do mundo. Angkor Wat ou “Cidade que é um Templo” – , no Camboja, ergue-se em meio à densa floresta. Reverencia quase seiscentos anos da ascensão e glória do Império Khmer, fundado no século IX.

"... Uma construção de tal modo extraordinária que não é possível descrevê-la (...) especialmente é diferente de qualquer outro edifício no mundo. Possui torres, decorações e todos os refinamentos que o gênio humano pode conceber"

Nestas palavras do frei capuchinho português Antonio da Madalena foram registradas, em 1.586, as primeiras impressões de um ocidental ao vislumbrar o maior, mais fascinante e imponente monumento religioso do mundo.

Angkor Wat ou “Cidade que é um Templo” – , no Camboja, ergue-se em meio à  densa floresta. Reverencia quase seiscentos anos da ascensão e glória do Império Khmer, fundado no século IX.

O espanto do frei capuchinho explica-se. Viver Angkor Wat é uma experiência marcante. Não só pelo contexto histórico e ambiental em que o monumento se insere, mas, também, pelo apelo místico que o envolve.

 

Voltado ao sol poente, o espetacular complexo, que um dia foi o centro político e religioso de uma civilização, mostra a face ao ocaso. Seria porque estaria destinado a ser a tumba de seu idealizador o rei Suryavarman II (1113-1150) ? Ou seria por estar dedicado a Vishnu, deus hindu responsável pela proteção do universo, associado ao quadrante Oeste?

A arquitetura Khmer legou ao mundo a arte de construir templos. Nesse império, o sagrado e o poder se entrelaçaram numa forma teocrática de governo. Angkor Wat, templo principal e sede do palácio real, declarado Patrimônio da Humanidade, é demonstração disso.

A planta do complexo, como em geral os templos do período Khmer, representa o desenho sagrado de uma mandala. Traduz a simbiótica relação entre o microcosmo terrestre – o complexo de templos – e o macrocosmo dos céus, – o Monte Meru -, centro do universo e a morada mítica dos deuses hindus. O povo Khmer acreditava ser a harmonia desta relação fundamental à  prosperidade do reino.

Tudo é grandioso em Angkor Wat. Uma área retangular de 200 hectares abriga o complexo, no qual se inclui um lago perimetral de 3,6 quilômetros e 190 metros de largura, evocação ao oceano cósmico. Essas águas abraçam um muro, que representa as extremidades do mundo.

Pela entrada Oeste, a principal, espetaculares najas acompanham a caminhada do visitante e ladeiam duas passarelas que, sobre o lago, levam ao monumental pórtico de entrada. Ali, três portais indicavam, naquela sociedade de castas, qual deveria ser utilizado: sacerdotes, funcionários, animais…

Na religão hindu, Vishnu, responsável pela manutenção do universo, forma a trindade sagrada junto a Shiva e a Brama. É geralmente representado flutuando com seus quatro braços, segurando um de seus atributos divinos em cada mão: uma concha, um disco de energia, um lótus e um cajado. Ao soprar a concha, pode ser ouvido o som que deu origem ao universo, o Om. Ela possui os cinco elementos da criação: ar, água, fogo, terra e éter. Enquanto o disco ou roda de energia simboliza o controle dos seis sentimentos –  e por isso é arma para decepar demônios -, o lótus representa a pureza e a verdade por detrás da ilusão. Já o cajado simboliza a origem da força física e mental do universo.

À medida em que se caminha pela passarela de 350 metros que abre passagem até a área central do complexo, estrategicamente posicionado está o lago interno. A contemplação por um momento é obrigatória. Em suas águas plácidas está o reflexo – e imagem invertida -do esplendor dos templos posicionados na plataforma sagrada de Angkor Wat.

De base piramidal “pois o quadrado é a forma perfeita” quatro templos (prasats) e as respectivas torres de cume em forma de botão de lótus foram implantados nos pontos cardeais,-em terraços de alturas decrescentes. Você olha para o alto e se pergunta a que veio a perfeita perspectiva: essas quatro torres simulam os picos das montanhas que circundam o Monte Meru, representado pelo cume da torre mais alta do Santuário Central. Duas bibliotecas, que não guardam simetria com o eixo central, completam o conjunto.

Para se chegar à estrutura sagrada de proporções perfeitas, subimos três níveis de escadarias que se abrem em pátios internos. Entre um pátio e outro, caminhamos por alguns quilômetros de galerias em sentido anti-horário. Este é um mergulho num mundo mitológico, narrado em baixo relevo, que desvenda bailarinas celestiais, – as apsaras  –  e guardiãs –  as devatas. Entalhadas em pilares e paredes, essas criaturas mágicas e encantadoras, se apresentam sozinhas ou em grupos, sedutoras, enfeitadas com joias e sofisticados penteados. Em diversos pavilhões, os baixo-relevos também contam histórias do rei construtor, Suryavarman II e as suas tropas, cenas míticas do hinduísmo como o batimento do oceano de leite, além de batalhas de deuses e, principalmente, Vishnu e seus avatares, contra demônios e a representação do mal.

Este é um mergulho num mundo mitológico, narrado em baixo relevo, que desvenda bailarinas celestiais - as apsaras - e guardiãs - as devatas

No relato do batimento do oceano de leite da mitologia, a grande serpente é enrolada na montanha central – o Monte Meru. Enquanto as deusas devas e os deuses do mal fazem do corpo do animal um cabo de guerra – puxando-o para frente e para trás – , o oceano se agita numa espécie de ordenha que levou à formação da terra e do cosmos.

A partir do século XV, o poder Khmer entrou em decadência. A genial obra de uma civilização foi lentamente sepultada pela floresta. Mas nunca abandonada, uma vez que, ali permaneceram os budistas que, a partir do século XIV tornaram-se a força religiosa preponderante no já então débil reino Khmer. Foi em 1860 que o complexo de Angkor Wat chamou a atenção e se popularizou no Ocidente, por meio da apaixonada descrição do naturalista e explorador francês Henri Mouhot, registrada em seus cadernos de viagem do Sião, Camboja e Laos:

Em seu auge, no século XII, o Império Khmer, o mais poderoso do Sudeste Asiático, incorporou territórios da atual Tailândia, Laos, Myanmar e Sul do Vietnã.

"Um desses templos é rival ao de Salomão. Erigido por algum antigo Michelangelo, poderia ocupar um honorável lugar entre os nossos edifícios mais belos. É maior do que qualquer do nossos legados de Grécia e Roma, e apresenta um triste contraste com o estado de barbárie em que agora se encontra sumida a nação."

Texto: Bertha Maakaroun

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