A Necrópole Tebana: o Vale dos Reis

Entre os confins do deserto e as terras férteis da margem Ocidental do rio Nilo, gargantas sinuosas de ressecados cursos d’ água acolhem a necrópole de Tebas, antiga capital do Egito. O silencioso Vale dos Reis, última morada dos faraós das 18ª, 19ª e 20ª dinastias do período compreendido entre 1539 e 1075 a.C. abre-se por detrás das colinas Dayr al-Bahri.

FONTE: Wikimedia Commons

No coração dessas montanhas foram escavadas as tumbas majestosas, testemunhos dos ritos fúnebres e culto aos mortos desta grande civilização.

Ao observar a violação das pirâmides de seus ancestrais, temendo a segurança, os faraós do Novo Império, buscaram nesse vale abrigo para a última morada. Tutmés I, rei entre 1493 AC e 1482 AC, inaugurou a tradição. Convocou o arquiteto Ininy para a missão secreta, considerada sagrada. Este mandou grafar em sua estela funerária, encontrada no cemitério dos nobres, localizado em Sheikh Abd El Qurna:“Fui eu só o supervisor e o responsável pela escavação de um túmulo montanhoso para a sua majestade. Ninguém mais ouviu nem viu”. Até Ramsés X, morto em 1107 a.C., o Vale dos Reis foi o destino a última morada faraós. À exceção da rainha Hatshepsut, filha de Tutmés I e esposa de Tutmés II (seu meio-irmão), – a mulher que por mais tempo de fato reinou no Egito -, as esposas dos faraós eram sepultadas em outro local, o Vale das Rainhas, a alguns quilômetros ao Sul.

Até hoje, foram encontradas no Vale dos Reis 63 sepulturas, a primeira delas em 1817, de Séti I – rei entre 1314 e 1304 a.C. – , pai de Ramsés II, o Grande. Desde 1979, o Vale dos Reis, o Vale das Rainhas e os templos de Luxor e de Karnak, do outro lado da margem do Nilo, foram designados Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Na filosofia egípcia, a morte é o momento em que o Ka, – a energia vital, espírito e sopro da vida – abandona o corpo, liberando a sua alma ao além. Em princípio desorientada, pairando em torno do cadáver, a alma é acolhida por Ísis, que a entrega a Anúbis, associado à mumificação e responsável por guiar o faraó até a porta do Hades. Pelos rios do mundo subterrâneo, a barca real cruzará o tenebroso reino de Seth, onde babuínos gigantes e os inimigos de Osíris assediam-na; a serpente Apofis tenta interromper o itinerário. Várias são as provações e portas e portais a transpor, até alcançar o juízo final perante Osíris. Nesse momento, Anubis deposita o coração do faraó em um dos pratos da balança e, no outro, a pena de Maat, a deusa da Verdade, sob o olhar atento de Thot e Amemait. A alma redimida se purifica no lago, em busca do “Nilo Celeste”, momento em que o Ka imortal do faraó ascende e se identifica com Ra, o ser supremo.  

O relato de toda essa travessia está retratado em pinturas e relevos nas tumbas reais. E no Vale dos Reis, o complexo funerário das dinastias tebanas se diferencia. As decorações que cobrem as paredes e tetos dos túmulos são textos religiosos e mágicos segundo a perspectiva egípcia antiga que ilustra a passagem ao além-mundo e o que garante uma viagem segura da alma do morto são textos e cenas protetoras. As cenas mais usadas do mais famoso Livro dos Mortos” – um conjunto abundante de sortilégios e preces que supostamente orientam o rei durante a sua viagem à eternidade.

O Livro do Imy-Dwat (Livro do mundo subterrâneo) é uma série complicada de textos, cenas, e encantamentos que narram ou orientam com misteriosidades a viagem de Rá através do mundo ultraterrestre junto às maldades e riscos que ele confronta, sobretudo, durante as 12 horas de noite (horas da escuridão) até o amanhecer. Além dos textos que narram encantos e sortilégios mágicos que vencem os diabos e criaturas terríveis que aparecem ameaçando o caminho do morto, os nomes secretos dos diversos deuses concedem ao rei morto a força e proteção necessária para seguir seu caminho no além-mundo.

Em quase todos os túmulos estão presentes cenas tradicionais de oferendas apresentadas pelo rei às diversas divindades, em particular Isis, Osíris, Hórus, Hathor, Maat, Rá-hor-Akhti, Petah, Anúbis, Amon e Mut. Há também cenas das constelações, cena da deusa Nut, deusa do céu com o seu corpo curvado e decorado de estrelas. Entre as cenas mais comuns dentro dos túmulos do Vale dos Reis se destacam cenas do Livro das Cavernas, Livro da Terra e as do Livro dos Portais.

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Texto: Bertha Maakaroun